sexta-feira, 27 de julho de 2018

Machado resenhado na THE NEW YOURKER

Bruxo do Cosme Velho escrevia literatura de apelo universal em vez de descrever a terra exótica imaginada pelos estrangeiros

Machado de Assis é um dos maiores escritores da língua portuguesa, e reconhecido por muitos críticos estrangeiros como um dos grandes nomes da literatura mundial. Por que então ele não é tão famoso mundialmente quanto outros autores, como Kafka ou García Marquez?

A nonagenária revista americana The New Yorker oferece uma explicação. Segundo o crítico Benjamin Moser, Machado de Assis não atraiu leitores estrangeiros justamente porque oferecia uma literatura de apelo universal e concentrada na vida de elites do Rio de Janeiro, em vez das criaturas folclóricas ou paisagens exóticas associadas ao nosso país.

Não existia imprensa no Brasil até 1808, quando chegou a família real portuguesa. “Um país inteiro não podia pensar por si próprio”, escreve Moser. Como em vários outros países das Américas, muitos escritores nascidos logo após a Independência buscaram motivos indígenas para formar uma consciência nacional – como foi o caso de Gonçalves Dias e José de Alencar. Ainda nessa época, muitos estrangeiros pensavam no Brasil como um paraíso tropical intocado, cheio de nobres selvagens.

Esse não era o caso da obra de Machado de Assis, com sua crítica social implícita, sua comédia humana universal e suas alusões à literatura europeia, que consumia vorazmente.  Para Moser, Machado de Assis era “irônico demais, pernicioso demais”. O autor carioca conseguia dizer as coisas mais ultrajantes “com imperturbável elegância e compostura” em histórias sobre a elite do Rio de Janeiro. Seus livros ajudam a enxergar que “o Brasil sempre foi, para o bem e para o mal, plenamente parte do Ocidente”.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Lula Livre/Lula Livro, antologia de Marcelino Freire e Ademir Assunção


A antologia Lula Livre – Lula Livro será lançada neste sábado (28), durante o Festival Literário em Paraty, no Rio de Janeiro. Organizada pelos escritores Ademir Assunção e Marcelino Freire, a obra conta com produções de diversos autores, como Xico Sá, Frei Betto, Alice Ruiz, Augusto de Campos, Raduan Nassar, Chico Buarque, Aldir Blanc, Chacal, Caco Galhardo, Marcia Dense, Noemi Jaffe, Gero Camilo, Raimundo Carrero, Eric Nepomuceno, Chico César, Laerte, entre outros.

Ao todo são 86 escritores e cartunistas de todo o país que colaboraram com o livro-manifesto. Cartuns, poemas, contos e crônicas compõem a produção, que se integra à luta popular pela liberdade do ex-presidente.

Segundo os organizadores Ademir Assunção e Marcelino Freire a publicação manifesta o inconformismo dos autores, “que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com o objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano, no tapetão, na cara-dura”.

“Fazia muito tempo que os escritores não tomavam um posicionamento conjunto tão vigoroso. Os descalabros que estão acontecendo no país desde o golpe de 2016 é que criaram a necessidade dessa manifestação político-literária”, afirmaram Ademir e Marcelino.

O livro-manifesto contará também com um site que incluirá todas as publicações inseridas na antologia, além de ter o PDF da obra divulgado.

Estão sendo planejadas, junto com os movimentos sociais, uma série de ações para divulgar e repercutir o livro em todo o Brasil e no exterior.


"Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza."

(Camões)

Joseph K., o conhecidíssimo personagem de Franz Kafka, se vê enredado em um processo judicial cujas origens desconhece e cujo desenrolar vai se tornando cada vez mais obscuro, sórdido e absurdo. 

O processo que assistimos no Brasil contemporâneo, contra uma figura pública central da história política dos últimos 40 anos, guarda semelhanças e dessemelhanças com o enredo kafkiano: se o seu desenrolar expõe uma lógica absurda, suas origens e fins são muito delineáveis.

Travestido com togas cheias de furos e remendos, simulação grosseira dos ritos legais que deveriam nortear a Justiça (com J maiúsculo), ele obedece a princípios e a um calendário com objetivo calculado: eliminar da disputa presidencial de 2018 o candidato com mais chances de vitória.

Orquestrado sob o pretexto de combate à corrupção – combate sempre bem-vindo e necessário – sua utilização camufla, porém, objetivos maiores: barrar as mudanças significativas que estavam em curso no país – muitas delas resultantes de demandas seculares –, principalmente a mais significativa, mas não a única: a retirada de 36 milhões de brasileiros do cinturão de miséria, através de políticas, programas e investimentos sociais reconhecidos e valorizados internacionalmente.

Como já visto em outros momentos da história recente, sob os mesmos pretextos e com métodos semelhantes, o que se concretiza é um golpe contra os interesses da maioria da população, para manter os privilégios de uma minoria.

Basta verificar que, logo após a consolidação da primeira etapa do golpe, uma das medidas aprovadas pelo Congresso Nacional foi a reforma trabalhista, que retira direitos históricos dos trabalhadores e agudiza ainda mais a crônica desigualdade socioeconômica brasileira.

É nesse contexto que surge este livro-manifesto. Mais do que um documento literário, o que se pretende é um documento claramente político, com as armas que os autores utilizam em seu fazer criativo: poemas, contos, crônicas, ensaios e cartuns. 

Os 90 poetas, prosadores e cartunistas aqui reunidos – de todas as regiões do país – atenderam ao chamado, na urgência dos fatos em curso no Brasil, para manifestar seu inconformismo com a prisão política do ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. 

Em um prazo curto, de poucas semanas, autores “que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com o objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano, no tapetão, na cara-dura”, conforme consignado no texto-convite enviado a cada um deles, fizeram questão de levantar a voz e enviar suas colaborações inéditas em livro.

O título é uma clara tomada de posição de todos os autores pela liberdade de Lula, mas a temática dos poemas, contos, crônicas e cartuns vai além: em rápidas pinceladas, determinadas pela urgência da iniciativa, procura manifestar o descontentamento com as mazelas de um país massacrado pela histórica e brutal desigualdade socioeconômica, e pelo retrocesso social, político, cultural e mental representado pelo golpe de 2016, quando a presidente Dilma Rousseff, eleita por 54.501.118 brasileiros, foi destituída através de uma manobra orquestrada por setores políticos, jurídicos e midiáticos, a pretexto de prosaicas e já esquecidas “pedaladas fiscais”.

O ódio abertamente fomentado na população por grande parte dos meios de comunicação de massa, o cinismo de acusações generalizadas, muitas vezes disparadas por notórios personagens aviltantes, e o escárnio com as regras do jogo democrático, manipuladas ao bel prazer de interesses obscuros, repetiram uma liturgia já vista em outros momentos históricos do Brasil, posta em prática sempre que se procura uma ordenação mais justa na vida social e econômica do país. 

O propósito deste livro, portanto, é o de unir as vozes destes autores aos movimentos nacionais – e até mesmo internacionais – contra a farsa da prisão do ex-Presidente Lula, e contra a continuidade do golpe anti-democrático representado por sua exclusão do processo eleitoral de 2018.

Pelo fim da prisão política de Luiz Inácio Lula da Silva; pelo direito dos eleitores votarem – ou não – em sua candidatura para a Presidência da República; pelo retorno do Brasil à normalidade democrática, é que se deve a existência deste Lula Livro.

Ademir Assunção / Marcelino Freire

LISTA COMPLETA DOS AUTORES

ADEMIR ASSUNÇÃO * ADEMIR DEMARCHI * ADRIANE GARCIA * AFONSO HENRIQUES NETO * ALBERTO LINS CALDAS * ALDIR BLANC * ALICE RUIZ * ANDRÉA DEL FUEGO * ANTONIO THADEU WOJCIECHOWSKI * ARTUR GOMES * AUGUSTO DE CAMPOS * AUGUSTO GUIMARAENS CAVALCANTI * BEATRIZ AZEVEDO * BERNARDO VILHENA * BINHO * CACO GALHARDO * CARLOS MOREIRA * CARLOS RENNÓ * CELSO BORGES * CELSO DE ALENCAR * CHACAL * CHICO BUARQUE * CHICO CÉSAR * CLAUDIO DANIEL * DIANA JUNKES * DOUGLAS DIEGUES * EDMILSON DE ALMEIDA PEREIRA * EDVALDO SANTANA * ELTÂNIA ANDRÉ * ERIC NEPOMUCENO * EVANDRO AFFONSO FERREIRA * FABIO GIORGIO * FABRÍCIO MARQUES * FERNANDO ABREU * FERRÉZ * FLÁVIA HELENA * FREI BETTO * GERO CAMILO * GIL JORGE * GLAUCO MATTOSO * JESSÉ ANDARILHO * JOCA REINERS TERRON * JORGE IALANJI FILHOLINI * JOSELY VIANNA BAPTISTA * JOTABÊ MEDEIROS * JUVENAL PEREIRA * KAREN DEBÉRTOLIS * LAERTE * LAU SIQUEIRA * LINALDO GUEDES * LÍRIA PORTO * LUCAS AFONSO * LUCIANA HIDALGO * LUIZ ROBERTO GUEDES * MANOEL HERZOG * MARCELINO FREIRE * MÁRCIA BARBIERI * MÁRCIA DENSER * MAURÍCIO ARRUDA MENDONÇA * NOEMI JAFFE * PATRÍCIA VALIM * PAULINHO ASSUNÇÃO * PAULO CÉSAR DE CARVALHO * PAULO DE TOLEDO * PAULO LINS * PAULO MOREIRA * PAULO STOCKER * PEDRO CARRANO * RADUAN NASSAR * RAIMUNDO CARRERO * RICARDO ALEIXO * RICARDO SILVESTRIN * ROBERTA ESTRELA D’ALVA * RODRIGO GARCIA LOPES * RONALDO CAGIANO * RUBENS JARDIM * SANDRO SARAIVA * SEBASTIÃO NUNES * SERAPHIM PIETROFORTE * SÉRGIO FANTINI * SÉRGIO VAZ * SIDNEY ROCHA * SUSANNA BUSATO * TARSO DE MELO * TEO ADORNO * VANDERLEY MENDONÇA * WALDO MOTTA * WELLINGTON SOARES * WILSON ALVES BEZERRA * XICO SÁ

Desenho da capa por Sandro Saraiva

O conto de Machado de Assis

Machado de Assis
Contos do Bruxo do Cosme Velho demonstram a profundidade da literatura do autor
       
Caio Sarack*, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2018 | 16h00

Wilhelm Reich (1897-1957) foi um dos maiores pensadores alemães do século 20 e, na obra Psicologia de Massas do Fascismo (1933), ponderou que o dever da psicologia social era explicar “não por que motivo o esfomeado rouba ou o explorado faz greve, mas por que motivo a maioria dos esfomeados não rouba e a maioria dos explorados não faz greve”. Em meio à difusa coerção social, compreendem-se os motivos pelos quais trazemos ordem à desordem mesmo que isso nos custe a própria vida ou a de outro? Se as muitas páginas de psicologia e de ciências sociais parecem colidir e se contrapor, deixando-nos à deriva no mar revolto da sociabilidade e da relação com sujeitos estranhos a nós, a literatura parece funcionar como um machado que rompe a duríssima película que represa nosso rio. 

+Peça mescla contos homônimos de Machado de Assis e Guimarães Rosa.


Marc Ferrez
Mulher negra com criança branca fotografada na Bahia, em 1860. Foto: Marc Ferrez/Acervo IMS
+As polêmicas e interpretações opostas suscitadas pela obra de Machado de Assis

Podemos encontrar um sumo exemplar desse objeto cortante em Pai Contra Mãe e Outros Contos (Editora Hedra), de Machado de Assis, antologia organizada por Alexandre Rosa, Flávio Ricardo Vassoler e Ieda Lebensztayn, que também assinam o ensaio no prefácio da edição: Os Inimigos do Homem Serão as Pessoas de sua Própria Casa: Crítica e Apologia Sociais em Pai Contra Mãe.

“Como um obstetra que nos dá as boas-vindas a este mundo com um tapa que nos faz chorar – bem-vindos ao nosso vale de lágrimas –, o narrador machadiano de Pai Contra Mãe rasga o ventre de seu conto sentenciando que ‘a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel’”. Imaginar a figura negra e epilética de Machado em meio à violência escravista à brasileira ligando-a ao cinismo do narrador que erode a vida psíquica das personagens nos dá a dimensão da profundeza produzida pela literatura; sociedade e subjetividade, convicções morais e utilitarismo se mesclam às palavras, antes ascéticas de dicionário, em meio ao realismo de Machado de Assis.

Vejamos o caso de Pai Contra Mãe: Candinho está prestes a sacrificar a vida de seu filho, de quem até então Nossa Senhora não conseguiu garantir a subsistência, quando avista a escrava fugida Arminda, que o salvaria – mas não só de pragmatismo vive o homem, mas de toda convicção que cimentará as ações em seu coração. Candinho lega o aborto que cometeria à escrava. “A vida de meu filho e a de seu filho têm uma diferença que não consegue mais ser descrita só ao apontarmos o pronome possessivo, é a materialidade daquilo que é do outro diante daquilo que é – íntima e irrevogavelmente – meu.”

Ao enunciar esse abismo, o narrador expõe tanto o vínculo umbilical que todos temos com aquilo que é nosso quanto o modo como esse inofensivo pronome permite que separemos os mortos deles dos nossos vivos. Entendemos que Candinho está emparedado e quer salvar sua criança. Ele, no entanto, precisa envolver seu amor com uma forte película a fim de que o amor da escrava-mãe não o faça desistir diante da empatia que, como pai, teria para com o filho alheio: o amor só é possível se for devidamente hierarquizado, não há espaço para todos, porque o espaço é escasso; não há pão para todos, porque o pão é escasso, não há vida para todos, porque “nem todos vingam”. Machado de Assis inocula no utilitarismo o seu próprio veneno – e se o homem, ao buscar o maior prazer de que pode dispor, anula a própria convivência com o outro? 

Não podemos supor a simples idiotia dos filósofos utilitaristas, e aqui faço menção à palavra “idiotia” em seu sentido preciso: ao apostar na perseguição individual dos homens de seu bem-estar, não se anula ou aniquila seu caráter social, o Utilitarismo estabelece o indivíduo como o material primeiro e inequívoco da vida social, dizendo que esta mesma vida será tanto mais justa quanto mais o fundamento individual for protegido, e em nenhum momento suprime a necessidade das relações sociais. Mas vemos que, quando aceitas, as prescrições assumem as mais interessantes e materiais conformações (e nos sorri o narrador do conto) no mundo social.

A ironia do autor e os parágrafos que formam um corpo de texto aparentemente neutro e distanciado escancaram a violência como resultado de uma interação entre o cálculo da vida social e a verdade subjetiva do pai Candinho. “Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras”, o sentimento do pai não se corrompe, muito pelo contrário: a certeza do abismo que há entre o meu filho e o seu filho pode garantir a tranquilidade de quem pertence ao grupo dos vivos e daqueles que não foram feitos para serem proscritos, e, ao mesmo tempo e sobre o mesmo aspecto, Candinho “abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto. – Nem todas as crianças vingam – bateu-lhe o coração”. Os sulcos que a literatura deixa na capa de gelo que cobre o rio da vida socialmente administrada liberam os pulsos que antes éramos incapazes de enxergar.

*Caio Sarack é mestre em filosofia pela FFLCH/USP e professor do Instituto Sidarta e do Colégio Nossa Senhora do Morumbi 

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Pá, Pá, Pá, Pá, Pá, Pá


Pá, Pá, Pá, Pá, Pá, Pá

Toda vez que eu leio um livro, eu me lanço. É. Eu caio. Pois é. Eu salto alto. Não quero nem saber. Escangalho o pé Confortável tem de ser a cama, não a leitura. Eu sempre penso isso da Literatura. Eu aprendi isso na marra. Gosto de livro que me dá tapa na cara. Cada página, um tapa. Pá, pá, pá, pá, pá palavra. E essa a minha guerra. Uma pauleira os parágrafos. E é assim que eu escrevo também, que eu tento escrever. Descrever o mundo. E não venham me dizer que eu escrevo sobre violência. Escrevo “sob” violência. Essa é a minha dança. E contradança também. Meu livro de contos BaléRalé foi meio isso. Esta vingança que eu falei. O livro foi publicado pela Ateliê Editorial em 2003. E agora chega esta peça de mesmo nome. Desde o ano passado que entrou em temporada essa encenação do premiado grupo carioca Teatro de Extremos. É de tremer. Eu próprio, sabendo o que escrevi, tremi. Porque cada ator ali sente o que está dizendo. A gente não escreve só com as mãos. É com o corpo inteiro. E a encenação é esse espelho de mim. Um espetáculo de corpo inteiro, bem brasileiro. A gente, todo mundo enforcado na corda-bamba. No limite entre a vida e morte. A gente é forte. Depois de um livro, a gente se sacode. Depois de uma peça assim a gente sobrevive. A arte faz isso. Não é acordar do sono, a saída é despertar. O que procuro, quando vou aos livros, é este movimento. No teatro também, cada um com seu formigamento. Meu muito obrigado, queridos Parceiros-Extremos.

Marcelino Freire (no encarte da peça BaléRalé)

domingo, 24 de junho de 2018

ENTREVISTA COM PAULO Tonani sobre literatura contemporânea (Folha)



PAULO ROBERTO TONANI DO PATROCÍNIO

professor colaborador do Programa de Pós- Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio e autor do livro "Escritos à Margem, a Presença de Autores de Periferia na Cena  Literária Brasileira" (FAPERJ/7Letras)

23/02/2014


É possível apontar tendências da produção literária contemporânea?

Todo olhar crítico que se debruça sobre a produção literária contemporânea busca antes de tudo identificar uma linha comum que possa aproximar autores e produções para além da própria relação temporal. Este esforço crítico resultou na constatação de certas tendências. A primeira é a observação da recorrência de uma escrita ficcional calcada na própria experiência do sujeito autoral, que borra as fronteiras entre a biografia e a ficção, se fixando neste interstício. É forte esta tendência e podemos nomeá-la como uma escrita de si ou autoficional, por trazer em seu corpo elementos do discurso biográfico a partir de uma espécie de pacto ficcional. Outra importante tendência é a produção literária que se volta para a tematização da violência urbana por meio de uma prosa ágil que busca representar o cotidiano das populações marginalizadas. Neste ponto, ganha destaque o fenômeno mais específico que é o da Literatura Marginal. Uma literatura que é produzida por autores residentes na periferia e que retratam esta realidade na prosa e poesia. Por fim, ao analisarmos a produção contemporânea também localizamos um importante sintoma que é o esvaziamento do desejo de representar o Estado-Nação em sua totalidade. Nos parece que não há mais espaço para este tipo de narrativa. De uma narrativa fundacional da nação. Quando se narra a nação, ela é narrada em fragmentos e não em sua totalidade. Fica patente que os discursos ficcionais que oferecem uma imagem da nação enquanto um organismo holístico estão encapsulados no passado.


Quais seriam suas principais qualidades e deficiências?

A principal qualidade da literatura brasileira contemporânea é sua a multiplicidade. Multiplicidade de temas, procedimentos estéticos e, principalmente, de autores. É claro que ainda temos um predomínio de autores se tomarmos como referência o número de escritoras. Mas um importante elemento da literatura contemporânea é a presença de novos sujeitos da enunciação por meio da Literatura Marginal, com a publicação de autores negros e moradores de periferia. 

A Feira de Frankfurt e os programas da política do livro mantidos pelo governo (bolsas de tradução, bolsas de criação, criação de festivais) trouxeram resultados significativos para a produção artística?

Não tenho como avaliar.

A perspectiva de aceitação no mercado exterior norteia de alguma forma o tipo de literatura que se está produzindo? O jovem autor escreve pensando no exterior?

Não creio que o desejo de publicar no exterior seja um elemento norteador da produção de um jovem autor. Além disso, caberia elaborar a questão de outra forma. O que o exterior espera de um jovem autor brasileira? O mercado internacional espera uma literatura que ofereça a cor local, representando traços de uma identidade nacional ou o próprio território? Essa questão impulsionou um rico debate em parte da literatura latino americana a partir da publicação do volume de contos "McOndo", organizada por Alberto Fuguet. O grupo de autores desejou romper com o realismo mágico de García Márquez e oferecer uma imagem da América Latina moldada pela cultura pop ocidental. No entanto, não observo esse tipo de preocupação com os autores brasileiros.

Existe uma "globalização" dos temas?

Não tenho como responder.

A literatura contemporânea inova em algum sentido? Ela renova formas, gêneros? Como?

O senso comum espera que o presente, o contemporâneo, consiga romper com o passado e criar o novo. A modernidade se baseia nesse tipo de percepção, que o presente é necessariamente o novo. No entanto, a própria crítica tem observado que a prosa contemporânea não se funda na busca pelo novo. A publicação do volume de ensaios "O Futuro pelo Retrovisor", de Giovanna Dealtry, Stefania Chiarelli e Paloma Vidal comprova isso. Os textos críticos reunidos no volume examinam obras literárias contemporâneas que estão ancoradas em procedimentos, temas e inquietudes formadas no passado. O olhar para o futuro está direcionado para o retrovisor, sendo necessário retornar a modelos do passado. Um belo exemplo disto é o romance "Passageiro do Fim do Dia", de Rubens Figueiredo. O romance apresenta um diálogo com o naturalismo cientificista do século 19 e coloca Charles Darwin como uma espécie de interlocutor do protagonista por meio da leitura que o personagem faz dos diários do pesquisador inglês. O naturalismo, uma importante referência estética e ideológica de nossa literatura, passa na contemporaneidade a ser lido de outra forma.

Existe ainda no Brasil literatura "regional"? A origem geográfica é determinante na literatura que se produz?

Não tenho como responder.

A literatura produzida atualmente no país é política?

A literatura produzida é política. Na realidade, é necessário afirmar que a literatura é uma atividade política. Mesmo que o autor busque de forma inocente afirmar que não produz uma literatura política, o próprio ato de escrever e assinar uma obra, colocando-se como autor de um volume de páginas, é um ato político. E a proposta de engajamento a partir da literatura é uma característica relevante para a crítica que deve ser analisada também em sua dimensão extraliterária. A chamada autoficção, voltada para o próprio eu, para a própria experiência, parece ser um dos mais fortes motes da produção literária dos últimos anos. 

Alguns estudos apontam uma exacerbação da subjetividade, que seria vista como um valor de autenticidade. Como avalia essa questão? Quais implicações disso na literatura brasileira?

Há no cenário contemporâneo um predomínio de obras que podem ser nomeadas como autoficcionais. No entanto, a classificação destas obras como autoficção em alguns casos obedece primeiramente o impulso do crítico que busca localizar no próprio ato de leitura indícios da "presença" do autor no universo ficcional construído no interior da obra. No entanto, é possível observarmos casos opostos em que o próprio autor busca rasurar essas fronteiras entre biografia e ficção. O caso mais exitoso é o de Ricardo Lísias, com a publicação de "Divórcio".

A literatura, se voltada para o eu, para a própria experiência, pode ser política?

"Divórcio", de Ricardo Lísias, é a prova de que um texto formado a partir de um explícito pacto autoficional pode ser um texto altamente político e significativo para alcançarmos uma bela representação da classe média contemporânea. Se no ato de leitura não lançarmos nossa atenção para os elementos biográficos do autor, não tratando-o como um Roman à clef, estamos diante de uma contundente representação da classe média paulistana, expondo a partir de um olhar de dentro a apatia política de seus membros.

Como as formas de interação via redes sociais se manifestam na literatura que se produz hoje?

Não posso responder.

Existe uma desagregação do romance como forma convencional – pela fragmentação, pela intervenção gráfica?

Luiz Ruffato, em "eles eram muitos cavalos", discutiu de forma extenuante essa questão. O autor afirma que para narrar uma megalópole como São Paulo foi necessário criar um novo modelo de representação e construção do romance. A estrutura linear não suporta as muitas vozes que estão presentes em uma cidade como São Paulo, o fragmento e a agilidade são os recursos possíveis para representar a cidade. No entanto, isso não invalida o romance enquanto forma. O romance acaba sendo reestruturado a partir do uso que os escritores oferecem. Um exemplo é a publicação do esperado romance de Marcelino Freire "Nossos Ossos". O autor domina a prosa curta e especializou-se em contos, criando um modelo próprio para o gênero. Ao publicar "Nossos ossos", seu primeiro romance, o autor não se submeteu ao romance enquanto gênero, mas sim submeteu o romance aos seus experimentos construídos no espaço do conto.

Antologias, coletâneas temáticas, seletas de escritores e outras iniciativas que partem do mercado editorial são frutíferas? Beneficiam a produção?

Sem dúvida. Não apenas beneficiam a produção, mas também surgem como objetos de pesquisa e de interesse da crítica. Um exemplo é a coleção "Amores expressos". Com o simples gesto de convidar autores para criarem narrativas de amor em diferentes capitais do mundo, a coleção lançou uma série de questões que interessam aos críticos. A antologia editada pela Granta também nos permitiu conhecer o perfil esperado e desejado pelos editores da revista para a imagem do jovem escritor brasileiro. 

As oficinas de criação literária, que abundam nos últimos anos, "moldam" a literatura que se produz hoje?

Não tenho como responder.

Que espaço tem a poesia hoje, na produção e no mercado? Pode ganhar mais espaço após o sucesso surpreendente da edição da poesia completa de Leminski no ano passado?

Não tenho como responder.


FONTE AQUI
ILUSTRÍSSIMA

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2014/02/1415847-respostas-de-paulo-roberto-tonani-do-patrocinio.shtml

terça-feira, 19 de junho de 2018

Aniversário de Chico Buarque e um texto de Caetano



"O Brasil é capaz de produzir um Chico Buarque: todas as nossas fantasias de autodesqualificação se anulam. Seu talento, seu rigor, sua elegância, sua discrição são tesouro nosso. Amo-o como amo a cor das águas de Fernando de Noronha, o canto do sotaque gaúcho, os cabelos crespos, a língua portuguesa, as movimentações do mundo em busca de saúde social. Amo-o como amo o mundo, o nosso mundo real e único, com a complicada verdade das pessoas. Os arranha-céus de Chicago, os azeites italianos, as formas-cores de Miró, as polifonias pigmeias. Suas canções impõem exigências prosódicas que comandam mesmo o valor dos erros criativos. Quem disse que sofremos de incompetência cósmica estava certo: disparava a inevitabilidade da virada. O samba nos cinejornais de futebol do Canal 100, Antônio Brasileiro, o Bruxo de Juazeiro, Vinicius, Clarice, Oscar, Rosa, Pelé, Tostão, Cabral, tudo o que representou reviravolta para nossa geração foi captado por Chico e transformado em coloquialismo sem esforço. Vimos melhor e com mais calma o quanto já tínhamos Noel, Haroldo Barbosa, Caymmi, Wilson Batista, Ary, Sinhô, Herivelto. A Revolução Cubana, as pontes de Paris, o cosmopolitismo de Berlim, o requinte e a brutalidade de diversas zonas do continente africano, as consequências de Mao. Chico está em tudo. Tudo está na dicção límpida de Chico. Quando o mundo se apaixonar totalmente pelo que ele faz, terá finalmente visto o Brasil. Sem o amor que eu e alguns alardeamos à nossa raiz lusitana, ele faz muito mais por ela (e pelo que a ela se agrega) do que todos nós juntos.” 

domingo, 17 de junho de 2018

O vazio do domingo, de Ramon Salazar


Abandonada aos 8 anos, mulher descobre o paradeiro da mãe e a obriga a permanecer dez dias com ela. a partir disso, neste filme cheio de silêncio, simbolismo e grandeza. Uma lindeza. 

domingo, 10 de junho de 2018

O dia em que eu deveria ter morido, de Javier Aranbia Contreras


Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros segundo a revista GRANTA

Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros segundo a revista GRANTA




Cristhiano Aguiar, da Paraíba
Javier Arancebia Contreras, de Salvador, de família chilena
Vanessa Barbara, de São Paulo
Carol Bensimon, de Porto Alegre
Miguel del Castilho, nasceu no Rio de Janeiro de pai uruguaio
João Paulo Cuenca, do Rio de Janeiro
Laura Erber, do Rio de Janeiro
Emilio Fraia, de São Paulo
Julian Fuks, de São Paulo
Daniel Galera, de São Paulo, mas morador de Porto Alegre
Luiza Geisler, de Canoas, mais nova, nasceu em 1991
Vinícius Jatobá, do Rio de Janeiro
Michel Laub, de Porto Alegre
Ricardo Lísias, de São Paulo
Chico Mattoso, nasceu na França, mas cresceu em SP
Antônio Prata, de São Paulo
Carola Saavedra, nasceu no Chile, mora no Rio
Tatiana Salem Levy, do Rio de Janeiro
Leandro Sarmatz, do Rio Grande do Sul
Antônio Xerxenesky, do Rio Grande do Sul



Cristhiano Aguiar nasceu em Campina Grande, Paraíba, e formou-se em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco. Tem 31 anos. Em 2006, publicou o livro de contos "Ao lado do muro" (Dinâmica) e em 2007 venceu o Prêmio Osman Lins de contos. Lançou, em 2010, durante a FreePorto (PE), o folheto de narrativas "Os justos", em edição artesanal pela Moinhos de Vento. É colaborador do suplemento literário Pernambuco. Editou a revista de arte e cultura pop Eita! (http://issuu.com/revistaeita) e a revista literária Crispim (www.revistacrispim.com.br). Foi curador e coordenador do Festival Recifense de Literatura e coorganizou a antologia de contos "Tempo bom" (Ed. Iluminuras). Atualmente trabalha em seu primeiro romance e em ensaios sobre literatura brasileira contemporânea. “Teresa” faz parte de Silêncio, livro de contos inédito.



Javier Arancibia Contreras nasceu em Salvador, BA, após sua família migrar do Chile durante o período de ditadura militar, mas vive desde a adolescência em Santos, SP. Escreveu os romances "Imóbile" (Editora 7Letras, 2008), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e "O dia em que eu deveria ter morrido" (Editora Terceiro Nome, 2010), premiado com uma bolsa literária do Governo do Estado de São Paulo. É também roteirista de cinema e, durante os anos em que trabalhou como repórter policial, escreveu um livro-reportagem/ensaio biográfico sobre o dramaturgo Plínio Marcos ("A crônica dos que não têm voz", Boitempo Editorial, 2002).




Vanessa Barbara nasceu em junho de 1982 no bairro do Mandaqui, em São Paulo. É jornalista, tradutora e escritora. Publicou "O livro amarelo do terminal" (Cosac Naify, 2008, prêmio Jabuti de Reportagem), o romance "O verão do Chibo" (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil "Endrigo, o escavador de umbigo" (Editora 34, 2011), ilustrado por Andrés Sandoval. Como tradutora, recentemente lançou sua versão de "O grande Gatsby" (Penguin/Companhia das Letras). É editora do site A hortaliça (www.hortifruti.org) e cronista do jornal Folha de S.Paulo. "Noites de alface" é um trecho de seu próximo romance.


Carol Bensimon nasceu em 22 de agosto de 1982, em Porto Alegre. Fez mestrado em escrita criativa na PUC-RS e viveu dois anos em Paris. Alguns de seus contos foram publicados em revistas e coletâneas. Seu primeiro livro de ficção, composto por três novelas, é "Pó de parede" (Não Editora, 2008). Em 2009, publicou pela Companhia das Letras o romance "Sinuca embaixo d’água", finalista dos prêmios São Paulo, Jabuti e Bravo!. O trecho publicado em Granta faz parte de seu novo romance, Faíscas.




Filho de pai uruguaio e mãe carioca, Miguel Del Castillo nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em arquitetura pela PUC-Rio e mudou-se para São Paulo em 2010, onde atualmente é editor da Cosac Naify. Foi editor da revista Noz, de arquitetura e cultura, e recebeu o prêmio Paulo Britto de Poesia e Prosa com o conto “Carta para Ana”, publicado na Antologia de prosa Plástico Bolha (Editora Oito e Meio, 2010). Tem 25 anos e trabalha, atualmente, em seu primeiro livro de contos, do qual “Violeta” faz parte.



João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior e é autor dos romances "Corpo presente" (Planeta, 2003), "O dia Mastroianni" (Agir, 2007) e "O único final feliz para uma história de amor é um acidente" (Companhia das Letras, 2010), publicado também em Portugal, na Espanha e na Alemanha. Em 2007, foi selecionado pelo Festival de Hay e pela organização do festival Bogotá Capital Mundial do Livro como um dos 39 autores mais destacados da América Latina com menos de 39 anos. “Antes da queda” faz parte de seu próximo romance, a ser publicado em 2013.



Laura Erber nasceu em 1979 e mora no Rio de Janeiro. É artista visual, formada em letras, com doutorado em literatura pela PUC-Rio, foi escritora em residência na Akademie Schloss Solitude de Stuttgart e no Pen Center de Antuérpia. Publicou contos e ensaios em diversas revistas e tem quatro livros de poesia, entre eles "Insones" (7Letras, 2002) e "Os corpos e os dias" (Editora de Cultura, 2008), finalista do Prêmio Jabuti na categoria poesia. Prepara um livro sobre Ghérasim Luca pela Eduerj e, atualmente, trabalha em seu primeiro romance, "Os esquilos de Pavlov", a ser publicado pela Alfaguara em 2013.


Emilio Fraia é editor de literatura da editora Cosac Naify. Publicou no Brasil autores como Enrique Vila-Matas, Antonio Tabucchi, Macedonio Fernández e William Kennedy. Nasceu em São Paulo em 1982. Como jornalista, foi repórter das revistas Piauí e Trip. Escreveu, em parceria com Vanessa Barbara, o romance "O verão do Chibo" (Alfaguara, 2008), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e atualmente termina a graphic novel "Campo em branco" (Companhia das Letras) com o ilustrador DW Ribatski.



Julián Fuks nasceu em novembro de 1981, em São Paulo. Filho de pais argentinos, foi repórter da Folha de S. Paulo e resenhista da revista Cult, além de publicar contos em diversas revistas e na antologia Primos: histórias da herança árabe e judaica (Record, 2010). É autor de "Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu" (7Letras, 2004), "Histórias de literatura e cegueira {Borges, João Cabral e Joyce}" (Record, 2007), finalista dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti, eProcura do romance (Record, 2011).



Daniel Galera nasceu em 1979, em São Paulo, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre. É um dos criadores da editora Livros do Mal, pela qual publicou o volume de contos "Dentes guardados" (2001). É autor dos romances "Até o dia em que o cão morreu" (Livros do Mal, 2003), adaptado para o cinema, "Mãos de cavalo" (Companhia das Letras, 2006), publicado também na Itália, na França, em Portugal e na Argentina, e "Cordilheira" (Companhia das Letras, 2008), vencedor do Prêmio Machado de Assis de Romance, da Fundação Biblioteca Nacional. Em conjunto com o desenhista Rafael Coutinho, publicou em 2010 a graphic novel "Cachalote". “Apneia” faz parte de um romance em andamento.



O livro de estreia de Luisa Geisler — Contos de mentira(Record, 2011) — foi escolhido pelo Prêmio SESC de Literatura 2010/2011 na categoria conto. No ano seguinte, o mesmo prêmio escolheu sua novela de estreia — "Quiçá" (Record, 2012) — na categoria romance. Atualmente, ela é colunista da página final da revista Capricho. Luisa nasceu em 1991 em Canoas, RS. Contudo, passa boa parte do seu tempo em Porto Alegre, estudando Ciências Sociais (UFRGS) e Relações Internacionais (ESPM/RS), e escrevendo sentada no chão do metrô.



Vinicius Jatobá nasceu em 1980, no Rio de Janeiro. É mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio e estudou roteiro e direção na New York Film Academy (NYFA). Como crítico literário, colabora com os suplementos “Sabático” (O Estado de S. Paulo), “Prosa & Verso” (O Globo) e na revista Carta Capital. Participou com contos na antologia Prosas Cariocas(Casa da Palavra) e no catálogo de cinema 68 Cinema Utopia Revolução (Caixa Cultural São Paulo). Publicou ficção, crônicas e jornalismo em sites e revistas como EntreLivros, NoMínimo, Rascunho e Terra Magazine, onde foi colunista de livros e de cinema. Escreveu e dirigiu diversos curtas, entre eles "Alta Solidão" (2010) e "Vida entre os mamíferos" (2011). Trabalha em seu primeiro romance, "Pés Descalços", e finaliza a reunião de contos "Apenas o vento", de onde “Natureza--Morta” foi retirado.



Escritor e jornalista, Michel Laub publicou cinco romances, todos pela Companhia das Letras. Entre eles, "Longe da água" (2004), publicado também na Argentina (EDUCC), "O segundo tempo" (2006) e "Diário da queda" (2011), que teve os direitos vendidos para o cinema, recebeu os prêmios Brasília e Bravo/Bradesco e sairá na Alemanha (Klett-Cotta), Espanha (Mondadori), França (Buchet/Chastel) e Inglaterra (Vintage). Nasceu em Porto Alegre, em 1973, e vive atualmente em São Paulo.




Ricardo Lísias nasceu em 1975, em São Paulo. É autor de "Anna O. e outras novelas" (Globo), finalista do Prêmio Jabuti de 2008, "Cobertor de estrelas" (Rocco), traduzido para o espanhol e o galego, "Duas praças" (Globo), terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira de 2006, e "O livro dos mandarins" (Alfaguara), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010, atualmente sendo traduzido para o italiano. Em 2012, publicou o romance "O céu dos suicidas" (Alfaguara). Seus textos já foram publicados também na revista Piauí e nas edições 2 e 6 de Granta em português.




Chico Mattoso nasceu na França, em 1978, mas sempre viveu em São Paulo. Formado em  letras pela USP, foi um dos editores da revista Ácaro e tem textos publicados em diversos jornais e revistas. Longe de Ramiro (Editora 34, 2007), seu primeiro romance, foi finalista do prêmio Jabuti. Em 2011, publicou pela Companhia das Letras seu segundo livro, "Nunca vai embora". Também trabalha como roteirista. Mora atualmente em Chicago, onde estuda escrita dramática na Northwestern University.



Antonio Prata nasceu em 1977, em São Paulo, e tem nove livros publicados, entre eles "Douglas" (Azougue Editorial, 2001), "As pernas da tia Corália" (Objetiva, 2003), "Adulterado" (Moderna, 2009) e, mais recentemente, "Meio intelectual, meio de esquerda" (Editora 34,2010), que reúne crônicas publicadas em jornais e revistas. Mantém uma coluna às quartas no caderno “Cotidiano” do jornal Folha de S.Paulo e escreve para televisão.



Carola Saavedra nasceu no Chile, em 1973, mas aos três anos de idade se mudou para o Brasil. Morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu um mestrado em comunicação. Vive atualmente no Rio de Janeiro. É autora do livro de contos "Do lado de fora" (7Letras, 2005) e dos romances "Toda terça" (2007), "Flores azuis" (2008 — eleito melhor romance pela Associação Paulista de Críticos de Arte) e "Paisagem com dromedário" (2010 —Prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor), publicados pela Companhia das Letras.



Tatiana Salem Levy é escritora, tradutora e doutora em estudos de literatura pela PUC-Rio. É autora do ensaio "A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze" (Civilização Brasileira, 2011) e dos romances "A chave de casa" (Record, 2007) — vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, categoria romance de estreia, e publicado também em Portugal, França, Espanha, Itália, Turquia e Romênia — e "Dois rios" (Record, 2011), que sairá em breve em Portugal e na Itália. Nasceu em Lisboa, em 1979, e vive no Rio de Janeiro.



Leandro Sarmatz vive em São Paulo desde 2001, onde trabalhou nas editoras Abril e Ática, e atualmente trabalha na Companhia das Letras, editando, entre outros autores, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Otto Lara Resende. É poeta, contista, dramaturgo e nasceu em Porto Alegre em 1973. Mestre em Teoria Literária, é autor da peça "Mães & sogras" (IEL, 2000), dos poemas de "Logocausto "(Editora da Casa, 2009) e dos contos reunidos em "Uma fome" (Record, 2010).



Ficcionista nascido em 1984, em Porto Alegre, Antônio Xerxenesky formou-se em letras e é mestre em literatura comparada pela UFRGS. Colabora com resenhas e críticas para diversos jornais e revistas e foi um dos fundadores da Não Editora, em 2007, por onde lançou seu primeiro romance, "Areia nos dentes", em 2008. Seu livro mais recente é a coletânea de contos "A página assombrada por fantasmas", editado pela Rocco em 2011. O texto selecionado faz parte de seu novo romance, "F para Welles".

sábado, 15 de agosto de 2015

Escritores contemporâneos: uma tentativa de classificação

Marginais, marginalizados, viés social

Marcelino Freire
Marçal Aquino
Fernando Bonassi
Ferréz
Luiz Ruffato
Paulo Lins
Luís Francisco Carvalho Filho
Gayrant Gallo
Ivana Arruda Leite
Ronaldo Correia de Brito
Alberto Musa


Produção pop e tramas surreais

Verônica Stigger
Nelson de Oliveira
Clarah Averbuck
Andrea del Fuego
Marcelo Mirisola
Lourenço Mutarelli
Santiago Nazarian
Natércia Pontes
Fabrício Carpinejar
Ademir Assunção
Adriana Lisboa
Cecilia Gianneti
Chico Matoso
Edson Cruz
Joca Reiners Terron
Paulo Scott
Ronaldo Bressane
Alberto Martins
Patricia Melo
Evandro Affonso Ferreira

Transgressores matrizes

Rubem Fonseca
Dalton Trevisan
Valêncio Xavier
João Antônio

Transcendentes e existencialistas

Hilda Hilst
Raduan Nassar
Osman Lins
Clarice Lispector
João Guimarães Rosa

Nuno Ramos


Intimista com causa: feministas, militantes e engajados

Lygia Fagundes Telles
Caio Fernando Abreu
Marcia Denser
Beatriz Bracher
Cristóvão Tezza
Marina Colasanti
Wander Piroli
Wilson Bueno
Sérgio Santana
João Gilberto Noll
Luís Vilela
Ivan Ângelo
Silviano Santiago


Neointimistas

Daniel Galera
Rubens Figueiredo
Adriana Lisboa
Michel Lub
João Anzanello Carrascoza
Bernardo Carvalho
Cíntia Moscovich
Tercia Montenegro
Heloisa Seixas
Paloma Vidal

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A nova literatura brasileira: Jovem, branca, urbana e de classe média

A nova literatura brasileira: Jovem, branca, urbana e de classe média

A última geração de escritores brasileiros se distancia do exotismo e cultiva uma narrativa cosmopolita e global


Se houvesse uma hashtag do escritor brasileiro com menos de 40 anos seria homem, branco, urbano, cosmopolita e indiferente a contrastes brutais de realidades sociais. "Este é um país muito desigual", disse Antonio Prata (São Paulo, 1977), cujas histórias, que concilia com colaborações para a Folha de S.Pauloe com roteiros para a televisão, estão ambientadas em sua cidade natal e refletem, de certa maneira, o elevador social de uma das megalópoles do planeta. "Se você for a um concerto na Sala São Paulo, não verá um negro entre o público. Em toda minha vida escolar, nunca tive um colega de escola negro, embora grande parte da população seja de negros. Dedica-se à literatura apenas aquele que está alfabetizado e a maioria é de classe média para cima e vive em grandes cidades. Há, claro, exceções, como em tudo. Talvez o livro mais importante dos últimos 20 anos seja Cidade de Deus, de Paulo Lins: um negro que veio da periferia".
Se como disse o crítico literário Antonio Candido, no prólogo do famosoRaízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, uma geração se caracteriza porque "seus membros nascem, a princípio, diferentes uns dos outros e, em pouco tempo, vão parecendo-se tanto que acabam desaparecendo como indivíduos", está claro que se pode falar de uma nova literatura entre os nascidos depois dos anos 1970, muito distante do regionalismo e dos costumes dos seus antecessores, depois da independência do país. Apesar do clichê do exotismo, a diversidade e a multietnicidade associados ao gigante sul-americano, a nova narrativa brasileira poderia estar ambientada em Paris, Londres e Madri e, de fato, está. "Se escrever histórias ambientadas em outros países fosse um problema, Shakespeare não existiria", assegura Carola Saavedra(Santiago de Chile, 1973), uma das escritoras jovens mais premiadas.
Prata e Saavedra são dois dos nomes mais interessantes do panorama atual em que estariam, entre outros, João Paulo Cuenca (Rio de Janeiro, 1978), Cristhiano Aguiar (Campina Grande, 1981), a poetisa e contista Luisa Geisler (Canoas, 1991), Emilio Fraia (São Paulo, 1982) ou Laura Erber (Rio de Janeiro, 1979), vários desses considerados estrelas emergentes pela edição que a prestigiada revista britânicaGranta dedicou ao Brasil e alguns que participaram da última Feira de Frankfurt, na qual o país foi o principal convidado.
"Há um grande desejo de se distinguir, de se afastar da geração anterior", disse Cuenca, eleito como um dos 39 melhores escritores latino-americanos com menos de 40 anos pelo Hay Festival da Colômbia e autor, entre outros, de Corpo Presente (Ed. Planeta, 2002) e A Última Madrugada (Ed. LeYa, 2012), e que combina a fascinação pela cultura japonesa com o compromisso social, chegando a promover na Internet o direito de manifestação, em meio aos protestos de junho de 2013. "Não sou o único que pensa assim. O que acontece é que o restante dos meus contemporâneos não são tão sinceros quanto eu, são muito mais políticos no pior sentido da palavra", aponta, com um espanhol perfeito (seu pai é argentino), salpicado de termos cariocas.
Antonio Prata. / RENATO PARADA
Com cinco obras publicadas e traduzidas, seu universo literário move-se entre a ficção científica e o suspense, entre Philip K. Dick, Allan Poe, Murakami e Orwell, entre a obsessão pelas redes sociais e as novas tecnologias e os escritores cariocas do século passado, embora, agora, a fronteira entre a realidade e a ficção esteja borrada. Seu próximo romance, que sairá este ano, chama-se A Morte de J. P Cuenca e tem um ar autobiográfico, com reminiscências de O Terceiro Homem, clássico de Carol Reed. "Acontece em 2008, quando a polícia descobre um cadáver em um edifício ocupado no centro do Rio. Carregava minha identidade e minha certidão de nascimento. A partir daí, contratei um detetive e reconstruí a história como um trama policial", disse o autor de O Único Final Feliz Para Uma História de Amor É Um Acidente (Companhia das Letras, 2010).
"Pluralidade é a palavra chave quando se fala de estéticas contemporâneas", assegura Cristhiano Aguiar que, com um único livro de contos (Ao Lado do Muro, Ed. Dinâmica, 2006), sacudiu a cena literária brasileira, ganhando o prêmio Osman Lins de contos no ano seguinte, e agora prepara vários ensaios sobre seus contemporâneos. "As grandes cidades são um cenário privilegiado de nossa ficção, apesar de alguns escritores também abordarem temas rurais ou do interior. Cada vez com mais frequência, mistura-se a erudição com gêneros considerados menores como a fantasia, o terror e a ficção científica. Em troca, o compromisso com o questionamento e a criação de uma identidade nacional é menor, ao menos se compararmos com as gerações anteriores", conclui.
Carola Saavedra. / TOMÁS RANGEL
Essa literatura cidadã dominada, como em outros países, pela chamada autoficção, a mescla de gêneros, o auge do conto, que tem uma larga tradição, e a narrativa fragmentada e episódica, própria das redes sociais, não apenas prejudica o compromisso, característico da chamada "geração 90", surgida nos anos, com nomes como Luiz Ruffato ou o próprio Lins, depois da ditadura militar de 1964 a 1985. Também rechaça uma rica e centenária tradição literária e vive em conflito entre a identidade e o cosmopolitismo, sinal dos tempos, sobretudo em países emergentes, como o Brasil, com 75% da sua população vivendo em cidades de mais de um milhão de habitantes. "Já houve uma grande ruptura com os anos 1970, que fechou um ciclo mais ou menos clássico da ficção e da poesia do século XX", disse Cristóvão Tezza, que por idade (61) e obra (seu livro O Filho Eterno, por exemplo, foi publicado em 2007) é quase um clássico. "Nos anos 1980 e 1990, houve uma espécie de hibernação de uma geração intermediária que seguiu novos caminhos, mas foi uma transição. A característica da nova literatura é a ruptura com a tradição clássica. Reflete claramente a nova realidade econômica, política e social do Brasil. Hoje, o país é profundamente urbano e tenta dialogar com a realidade internacional", assegura.
A esse processo precisa-se somar a aparição de uma classe média de 40 milhões de pessoas, a chamada classe C, inexistente há uma década, que exige um bem-estar maior, e cuja vitalidade contrasta com a impotência com a qual os políticos enfrentam os crescentes protestos sociais. "Essa tendência universalista e cosmopolita não tem por que ser vista como algo negativo, perda de identidade ou algo semelhante. Simplesmente, as exigências de hoje são outras", aponta Tezza.
Cristhiano Aguiar / MARIO MIRANDA
Muitos críticos acreditam que a melhor literatura que agora se escreve no Brasil é a feminina, mais tridimensional e completa, mais destruidora na hora de romper tabus. Há pioneiras, como Claudia Tajes (Porto Alegre, 1963), cujos romances (Vida Dura, Louco por Homem ou A Vida Sexual da Mulher Feia) dissecam a sexualidade brasileira, com muito humor, ou Beatriz Bracher (São Paulo, 1961), com Não Falei, sobre um professor torturado durante a Ditadura Militar, que abriu caminho para as mais jovens: Carol Bensimon (Porto Alegre, 1982), Tatiana Salem Levy (Lisboa, 1979), admirada pelo britânico Ian Mc Ewan, Andrea del Fuego (São Paulo, 1975), ou a própria Saavedra, cujo livro Flores Azuis (Ed. Companhia das Letras), uma espécie de ressurreição do gênero epistolar, em pleno século XXI, foi eleito em 2008 como o melhor pela crítica paulista, e que publica no fim de março O inventário das coisas ausentes. "Não vejo diferenças quanto à qualidade da escritora nem em relação à visibilidade, a não ser nos prêmios literários, nos quais a proporção costuma ser de oito homens para duas mulheres", disse Saavedra. "Estamos em um momento ótimo. Não porque a literatura está melhor agora que há 20 anos, mas porque é uma época bastante favorável para os autores, publica-se mais e inclusive há incentivos para traduções. No entanto, devemos lidar com um problema muito sério que é a falta de leitores. E para isso, seria urgente uma mudança em todo o sistema educacional do país".


FONTE: EL PAIS
Link AQUI

sábado, 11 de abril de 2015

Sobre Dalton Trevisam




http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,livro-de-ensaios-sobre-dalton-trevisan-ganha-edicao-ampliada,1667653

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Garimpo


Garimpo, de Beatriz Bracher

segunda-feira, 17 de março de 2014

Respostas de Alcir Pécora (Folha de São Paulo - 23-2-2014)

Respostas de Alcir Pécora

Professor de teoria literária da Unicamp e autor de "Máquina de Gêneros" (Edusp)
É possível apontar tendências da produção literária contemporânea?
Acho que a produção é bem dispersiva e pouco marcante, em qualquer tendência
que se observe. O que mais existe é, por assim dizer, um genérico de literatura, que
se expande muito, em várias direções, inflaciona a vida de signos, mas não tem
caráter decisivo como experiência ou como experimento.

Quais seriam suas principais qualidades e deficiências?
Já pela resposta anterior, estou mais preparado para falar dos defeitos. Na poesia,
há predomínio do gosto evocativo, sentimental, sentencioso e generalizante, pois
se trata mais de uma "ideia geral" (esse horror, como dizia o Eduardo Coutinho),
de um clichê confessional e de intimidade do que de experiência. Na prosa, há
muita narrativa sobre narrativa, que refere livros e vidas dos autores célebres, as
quais funcionam como piscadelas cúmplices para o leitor amigo capaz de
identificar as referências.
Ou seja, resumindo, na poesia, a praga é o kitsch, falta de fibra e de objetividade;
na prosa, o romanesco ralo, batido, com remissões ostensivas ao "mundo dos
livros" e à cultura de fachada.
Nos livros melhores- justamente os que se apresentam como exceções às
tendências –, permanece o compromisso com o novo (pois este é uma exigência
invencível do próprio campo da literatura) e com a verdade (com questões levadas
a sério, como experiência de viver e pensar o real).

A Feira de Frankfurt e os programas da política do livro mantidos pelo
governo (bolsas de tradução, bolsas de criação, criação de festivais)
trouxeram resultados significativos para a produção artística?
Esse tipo de iniciativa, à qual acrescentaria as festas e os prêmios literários cada vez
maiores e mais comuns, têm efeitos eventuais para a profissionalização do escritor
e para o incremento do mercado livreiro. Ou seja, pode favorecer quem faz da
literatura um negócio, mas os resultados mais comuns se resumem à publicidade

em favor de alguns autores de umas poucas editoras, o que pode gerar um cânone
de ocasião, por assim dizer, tirado da manga para um evento oficial e finito ali
mesmo.
A meu ver, a produção artística, em termos de nível médio, só é realmente afetada
pela qualidade do sistema educacional do país.
A perspectiva de aceitação no mercado exterior norteia de alguma
forma o tipo de literatura que se está produzindo? O jovem autor
escreve pensando no exterior?
"Jovem" já é uma categoria do negócio e não da literatura: trata-se de colocar
novos produtos na praça identificados a um novo público consumidor. Como
categoria do negócio, ela vai aonde vai o negócio, e, portanto, é crível a figura desse
"jovem" em busca de um padrão que vença no "exterior".
Mas duvido um pouco dessa abertura do exterior para a literatura brasileira. Essa
possibilidade deve permanecer um nicho de poucos, justamente aqueles
agenciados por grandes editoras, ou então de uns poucos autores já conhecidos,
entre eles o famigerado Paulo Coelho. Acho que o momento de curiosidade maior
pelo Brasil já passou. Ásia e África parecem estar mais na cena desse mercado
"exótico" do que o Brasil.
Existe uma "globalização" dos temas?
Eu li outro dia um livro brasileiro que imitava o Dan Brown, assim como li outros
que imitavam o Vila-Matas. Me lembro daquele projeto "Amores Expressos", que
colocava autores nacionais em cenários estrangeiros e buscava dar-lhes rumos
internacionais. Assim, há qualquer esforço de globalização de temas, mas na
prática ocorre apenas a adoção de estereótipos literários internacionais, os quais
acabam suscitando pouco interesse desse mercado globalizado.
O que o mercado globalizado da literatura pede, em geral, é o contrário do que já
pode ter por si mesmo. Isto é, pede o pitoresco e exótico locais, ou então narrativas
com testemunhos de experiências de minorias marginalizadas ou situadas em
zonas conflagradas e pouco conhecidas. Na primeira alternativa, Jorge Amado é
mais "globalizado" do que qualquer autor brasileiro contemporâneo que eu
conheça. Na segunda, há pouca coisa a ser oferecida pelo Brasil, pois a exclusão
social é grande a ponto de testemunhos de experiência direta raramente alcançar
versão escrita, quanto mais literária. Quando ocorre, dá-se muito mais na música
popular ou no documentário jornalístico que na literatura. Até a moda praiana,
produzida na favela, tem mais sentido de encaixe no mercado globalizado que a
literatura brasileira.

A literatura contemporânea inova em algum sentido? Ela renova
formas, gêneros? Como?
A literatura contemporânea, no Brasil ou fora dele, raramente inova, pois vive um
impasse radical. De um lado, já não consegue fazer a epopeia da construção
nacional, pois a circulação internacional do capital minou as bases do Estado-
nação; de outro, não cola como valor estético suficientemente duradouro, pois seu
programa, geralmente associado a reivindicação de direitos, tende a ser imediatista
e relativo a grupos restritos.
Acho que a Teoria tem ocupado a centralidade cultural que era da literatura. Os
grandes nomes da cultura, hoje, com rara exceção, são de pensadores, teóricos,
não de escritores.

Existe ainda no Brasil literatura "regional"? A origem geográfica é
determinante na literatura que se produz? 
Sinceramente não sei. Talvez haja. O Rio Grande de Sul, em especial, preza muito a
sua face gaucha. Sei que, em diferentes universidades do país, há disciplinas sobre
literaturas regionais. Seja como for, o mercado de livros é muito centralizado. S.
Paulo e Rio monopolizam a produção, a circulação, a distribuição etc., de modo
que, de alguma maneira, o Brasil é grande, mas vive encolhido.
Não apenas o "regional", mas a maior parte do que é produzido fora desse eixo fica
fora do acesso público nacional. É uma perda tremenda. Uma produção menos
determinada pelas modas editoriais, mais vincada em experiências reais seria
sempre um respiro, mesmo que não chegasse a ser grande. Nisso, não apenas a
música, mas o cinema tem se saído melhor: Pernambuco, por exemplo, tem uma
produção séria e de alcance internacional.
No que toca à segunda questão, a origem geográfica pode ser determinante ou não,
mas a literatura não admite determinação a priori, de nenhuma espécie. Por
exemplo, já que falamos em Pernambuco: Cabral ser pernambucano pode ser
importante para a sua literatura, mas é consideração que apenas podemos fazer a
partir da forma já efetivamente produzida. Antes, não.

A literatura produzida atualmente no país é política?
Está muito longe da política, embora, por vezes, se finja oportunisticamente de
política: li vários livros recentes que referem guerrilhas ou sequestros, mas elas
aparecem apenas como fait divers. Política ali é apenas uma tentativa de criar uma
aura séria ou histórica para a diversão fácil.



Em literatura, não existe característica determinante a priori. Não é como uma
língua já existente, ou uma variante de fala prevista nela. Ser política ou atribuir-

lhe qualquer essência particular apenas pode ser relevante depois que a forma
particular é efetuada. Antes disso, a literatura apenas pode ser pensada como
intervenção imprevista. Depois disso, quanto melhor ela for, mais ela é
autodeterminada em seus próprios termos.


A identidade nacional era, de uma forma ou outra, um tema sempre
presente em nossa ficção. Isso se perdeu? Essa questão deixou de ser
central?
Não é apenas questão de "identidade" nacional – identidade era apenas uma das
possibilidades de pensar os acontecimentos vividos com relativa urgência. A
questão, até por volta dos anos 60/70, a forma literária era central na interpretação
do país, parecia central na criação consistente de uma comunidade imaginária que
respondia por ele ou por seus destinos. Hoje, essa urgência interpretativa perdeu
fôlego para a representação de um pequeno espetáculo de si, de grupos de leitores
ou de comunidades mais restritas, com gostos e perspectivas a priori homogêneos,
ainda que disseminados pelo mundo. Quero dizer, enfim, que não me parece que
seja na literatura, na linguagem da invenção, que se trava, hoje, a batalha das
contradições do real ou da busca de suas alternativas mais consistentes.
Essa centralidade obtida em decorrência do fortalecimento do estado-nação é um
ciclo terminado, em função mesmo do enfraquecimento do Estado-nação no
contemporâneo. Isto posto, não entendo que seja possível qualquer retorno à
situação histórica anterior, nem acho que nos cabe qualquer nostalgia da
brasilidade perdida. Cabe, sim, à literatura buscar descobrir uma nova centralidade
para si no cerne da vida social. É isso ou conformar-se a um papel lateral,
secundário na cultura.
A minha opção, pessoalmente, é pela relevância decisiva da literatura. Mas criar
uma nova centralidade implica, a meu ver, em tirá-la desse "entre-lugar" no qual se
reduz à expressão de grupos de semelhantes ou de próximos, ou à produção e
consumo de entretenimento pop, no qual a crítica e o compromisso com o novo
não têm papel.
Reforçar a crítica, capaz de formular critérios adequados de análise das obras em
particular, e considerar as obras sob pressão do legado cultural mais exigente são,
para mim, as melhores pistas para uma retomada de seu lugar de força na cultura.
A chamada autoficção, voltada para o próprio eu, para a própria
experiência, parece ser um dos mais fortes motes da produção literária
dos últimos anos. Alguns estudos apontam uma exacerbação da
subjetividade, que seria vista como um valor de autenticidade. Como
avalia essa questão? Quais implicações disso na literatura brasileira?
Em geral, a única autenticação no gênero que tem sido chamado de autoficção no
Brasil é a da vulgaridade: uma exposição despudorada de uma falsa subjetividade,
construída para consumo imediato e obsceno em larga escala.
Claro, falando genericamente, pode-se dizer que toda ficção é "auto", ou seja, toda
invenção se associa à produção de uma subjetividade (não à sua representação
inerte ou transparente), mas o que tenho lido na esfera do que se autonomeia de
autoficção está bem mais próximo da falsificação da experiência e da história como
espetáculo vulgar.
Como as formas de interação via redes sociais se manifestam na
literatura que se produz hoje?
Formalmente, talvez na ideia de capítulos em pedacinhos, de literatura em
fragmentos, como os scrapbooks de adolescentes americanos: esse é um dos
modelos populares de literatura hoje. Há também um modo de compor o livro
inteiro nessa disposição segmentada: um capítulo sobre uma coisa, outro sobre
outra, o terceiro sobre outra, até que ao final se juntam no mesmo enredo de
última hora. É uma espécie de fecho de editor: como os capítulos têm passinhos
curtos, os caminhos se articulam tarde demais, às pressas, fora do tempo
construído por eles.
Mas o pior da interação redes sociais-literatura talvez seja a ideia de se escrever
para próximos, de estabelecer contato entre "amigos". Nesses termos, é mínima a
preocupação com o domínio técnico da língua, do assunto ou com o rigor da
criação, o que implica demanda do novo, sem o que não há literatura. Por isso
mesmo, é nula a demanda crítica, e quando um crítico se apresenta diante da obra,
ele acaba por assumir a condição de "intruso", como diz o crítico italiano Alfonso
Berardinelli.
Talvez um termo de Tony Judt esclareça melhor o assunto, pois a literatura sob o
influxo das redes sociais está balizada por "subjetividades expandidas" mais do que
pelo esforço de criação de objetos novos, que resistem a uma interpretação já dada
e partilhada. Ora, um aparelhamento ostensivo de gente que deve necessariamente
concordar entre si, rezar a mesma missa dos pares, nada tem a ver com uma ideia
importante de literatura. Enquanto tal, ela é produção de um artefato basicamente
estranho, de assimilação difícil, de acontecimento único, de criação de uma forma
que suscita necessariamente um ato livre de juízo.
Existe uma desagregação do romance como forma convencional –pela
fragmentação, pela intervenção gráfica?
Embora a fragmentação exista, como já comentei antes, o gênero do romance
(equivocadamente totalizado pelo modelo do romance naturalista francês) sempre
foi uma forma livre, aberta a experimentações gráficas e ao que mais a prosa
admita. Na Itália, por exemplo, nunca houve esse modelo do romance realista
totalmente articulado entre si. Nas outras literaturas, dá-se igualmente o caso: de
Sterne a Machado, de Huysmans a Joyce, de Proust a Broch, o que neles pode ser
chamado de romance convencional?
Tendo isso em mente, não vejo grandes experimentações gráficas atuais - ao
menos, não no que signifique participação do experimento no cerne do romance –,
mas apenas formas decorativas do livro. Quer dizer, há muito livro decorativo, com
páginas em várias cores, com tipologia alternada e alterada, mas a narrativa
propriamente é linear, quadrada, escrita embora aos pedacinhos.
Antologias, coletâneas temáticas, seletas de escritores e outras
iniciativas que partem do mercado editorial são frutíferas? Beneficiam
a produção? 
São iniciativas úteis para a divulgação do trabalho deste ou daquele autor

desconhecido ou não, ou para dar acesso a peças consideradas mais importantes
de um autor, segundo determinados critérios estéticos ou outros. Mas nada disso
beneficia diretamente a qualidade da produção. Como poderia, quando a
divulgação é um ato isolado, um evento ocasional, descolado da formação do
leitor?
Repito o que disse antes: o procedimento eficaz a ser adotado para favorecer a
produção literária é a qualificação do sistema educacional do país. Pode não
garantir nenhuma obra-prima, pois esta não tem explicação, nem cumpre hora
marcada pra acontecer, mas é apenas a força do processo educacional que garante
o peso relativo da cultura no país.
As oficinas de criação literária, que abundam nos últimos anos,
"moldam" a literatura que se produz hoje?
No Brasil, acho que não. Essas oficinas não são tão correntes nem tão prestigiosas
como nos Estados Unidos, onde têm presença marcante nas Universidades e nos
estudos literários. Aqui, os cursos são oferecidos de maneira amadora, quase como
aulas particulares de reforço de redação.
Que espaço tem a poesia hoje, na produção e no mercado? Pode
ganhar mais espaço após o sucesso surpreendente da edição da poesia
completa de Leminski no ano passado?
O espaço é pequeno e dificilmente deixará de continuar pequeno. No Brasil,
evidentemente, a situação é muito pior que nos países europeus, uma vez que é
mínimo o tamanho do público com formação cultural bem sedimentada, apto a
interpretar diversos registros da experiência e da linguagem.
Leminski foi um caso isolado de ajuste de uma campanha publicitária altamente
profissional com uma poesia de viés pop, que casou bem com a internet e com as
sentenças de sabedoria prática e auto-ajuda para jovens. A melhor poesia de
Leminski não se reduz a isso, mas, no conjunto, é uma poesia que admite esse
recorte. Nesses termos, é mais um exemplo da facilitação geral que sinal de uma
mudança boa de rumos. 
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Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Estudando os contistas pós-utopicos ou as novas formas
da Literatura Brasileira.