domingo, 8 de julho de 2012

20 melhores escritores brasileiros - Revista Granta


Revista Granta anuncia os 20 melhores escritores brasileiros durante Flip

Mariane Zendron
Do UOL, em Paraty (RJ)
A revista de literatura Granta anunciou na tarde desta quinta-feira (5), em Paraty, os 20 melhores jovens autores brasileiros. Essa é a primeira vez que a revista de língua inglesa, uma das mais respeitadas do mundo, divulga uma lista com autores do Brasil. Aqui, a Granta é publicada pelo selo Alfaguara, que pertence à editora Objetiva.
Os vinte escritores são Cristhiano Aguiar, Javier Arancibia, Vanessa Barbara, Carol Bensimon, Miguel Del Castillo, João Paulo Cuenca, Laura Erber, Emilio Fraia, Julián Fuks, Daniel Galera, Luisa Geisler, Vinicius Jatobá, Michel Laub, Ricardo Lísias, Chico Mattoso, Antônio Prata, Carola Saavedra, Tatiana Salem Levy, Leandro Sarmatz e Antônio Xerxenesky.
O evento para divulgar os nomes, realizado na Casa da Cultura da cidade fluminense, contou com a presença do editor da Granta inglesa, John Freeman, Roberto Feith, diretor-geral da editora Objetiva, e Marcelo Ferroni, editor de Granta em português e do selo Alfaguara. “Trata-se de uma coletânea vibrante, diversa e moderna,” disse Feith. “[A lista] indica nomes que irão construir o mapa da literatura brasileira”. A primeira livraria a vender a Granta com textos dos autores nacionais será a Livraria da Vila em Paraty para depois serem distribuídas a outras livrarias do Brasil.
Para chegar aos 20 nomes, os sete jurados – Beatriz Bracher, Benjamim Moser, Cristovão Tezza, Italo Moriconi, Manuel da Costa Pinto, Marcelo Ferroni e Samuel Titan Jr – avaliaram 247 textos inéditos. Os autores que concorreram precisavam ter, obrigatoriamente, menos de 40 anos e já contarem com textos previamente publicados por alguma editora. “Tudo foi decido por votação e consenso. Houve algumas discussões acaloradas, mas tudo foi resolvido tranquilamente”, falou o jurado Marcelo Ferroni.
Desde 1983, a cada dez anos, Granta publica um número intitulado “Os Melhores Jovens Escritores Britânicos”. Cada edição da Granta reúne textos inéditos de ficção e não ficção de nomes como Julian Barnes, Mario Vargas Llosa, Milan Kundera, Gabriel García Márquez e Joyce Carol Oates.

Imagens da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2012

Foto 26 de 31 - Os escritores Alexandre Pimentel e Silvia Castrillon na Mesa Zé Kleber (5/7/12)Adriano Vizoni/Folhapress
Veja abaixo as biografias dos 20 autores brasileiros escolhidos para a Granta:
Cristhiano Aguiar nasceu em Campina Grande, Paraíba, e formou-se em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco. Tem 31 anos. Em 2006, publicou o livro de contos "Ao lado do muro" (Dinâmica) e em 2007 venceu o Prêmio Osman Lins de contos. Lançou, em 2010, durante a FreePorto (PE), o folheto de narrativas "Os justos", em edição artesanal pela Moinhos de Vento. É colaborador do suplemento literário Pernambuco. Editou a revista de arte e cultura pop Eita! (http://issuu.com/revistaeita) e a revista literária Crispim (www.revistacrispim.com.br). Foi curador e coordenador do Festival Recifense de Literatura e coorganizou a antologia de contos "Tempo bom" (Ed. Iluminuras). Atualmente trabalha em seu primeiro romance e em ensaios sobre literatura brasileira contemporânea. “Teresa” faz parte de Silêncio, livro de contos inédito.
Javier Arancibia Contreras nasceu em Salvador, BA, após sua família migrar do Chile durante o período de ditadura militar, mas vive desde a adolescência em Santos, SP. Escreveu os romances "Imóbile" (Editora 7Letras, 2008), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e "O dia em que eu deveria ter morrido" (Editora Terceiro Nome, 2010), premiado com uma bolsa literária do Governo do Estado de São Paulo. É também roteirista de cinema e, durante os anos em que trabalhou como repórter policial, escreveu um livro-reportagem/ensaio biográfico sobre o dramaturgo Plínio Marcos ("A crônica dos que não têm voz", Boitempo Editorial, 2002).
Vanessa Barbara nasceu em junho de 1982 no bairro do Mandaqui, em São Paulo. É jornalista, tradutora e escritora. Publicou "O livro amarelo do terminal" (Cosac Naify, 2008, prêmio Jabuti de Reportagem), o romance "O verão do Chibo" (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil "Endrigo, o escavador de umbigo" (Editora 34, 2011), ilustrado por Andrés Sandoval. Como tradutora, recentemente lançou sua versão de "O grande Gatsby" (Penguin/Companhia das Letras). É editora do site A hortaliça (www.hortifruti.orge cronista do jornal Folha de S.Paulo. "Noites de alface" é um trecho de seu próximo romance.
Carol Bensimon nasceu em 22 de agosto de 1982, em Porto Alegre. Fez mestrado em escrita criativa na PUC-RS e viveu dois anos em Paris. Alguns de seus contos foram publicados em revistas e coletâneas. Seu primeiro livro de ficção, composto por três novelas, é "Pó de parede" (Não Editora, 2008). Em 2009, publicou pela Companhia das Letras o romance "Sinuca embaixo d’água", finalista dos prêmios São Paulo, Jabuti e Bravo!. O trecho publicado em Granta faz parte de seu novo romance, Faíscas.
Filho de pai uruguaio e mãe carioca, Miguel Del Castillo nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em arquitetura pela PUC-Rio e mudou-se para São Paulo em 2010, onde atualmente é editor da Cosac Naify. Foi editor da revista Noz, de arquitetura e cultura, e recebeu o prêmio Paulo Britto de Poesia e Prosa com o conto “Carta para Ana”, publicado na Antologia de prosa Plástico Bolha (Editora Oito e Meio, 2010). Tem 25 anos e trabalha, atualmente, em seu primeiro livro de contos, do qual “Violeta” faz parte.
João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior e é autor dos romances "Corpo presente" (Planeta, 2003), "O dia Mastroianni" (Agir, 2007) e "O único final feliz para uma história de amor é um acidente" (Companhia das Letras, 2010), publicado também em Portugal, na Espanha e na Alemanha. Em 2007, foi selecionado pelo Festival de Hay e pela organização do festival Bogotá Capital Mundial do Livro como um dos 39 autores mais destacados da América Latina com menos de 39 anos. “Antes da queda” faz parte de seu próximo romance, a ser publicado em 2013.
Laura Erber nasceu em 1979 e mora no Rio de Janeiro. É artista visual, formada em letras, com doutorado em literatura pela PUC-Rio, foi escritora em residência na Akademie Schloss Solitude de Stuttgart e no Pen Center de Antuérpia. Publicou contos e ensaios em diversas revistas e tem quatro livros de poesia, entre eles "Insones" (7Letras, 2002) e "Os corpos e os dias" (Editora de Cultura, 2008), finalista do Prêmio Jabuti na categoria poesia. Prepara um livro sobre Ghérasim Luca pela Eduerj e, atualmente, trabalha em seu primeiro romance, "Os esquilos de Pavlov", a ser publicado pela Alfaguara em 2013.
Emilio Fraia é editor de literatura da editora Cosac Naify. Publicou no Brasil autores como Enrique Vila-Matas, Antonio Tabucchi, Macedonio Fernández e William Kennedy. Nasceu em São Paulo em 1982. Como jornalista, foi repórter das revistas Piauí e Trip. Escreveu, em parceria com Vanessa Barbara, o romance "O verão do Chibo" (Alfaguara, 2008), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e atualmente termina a graphic novel "Campo em branco" (Companhia das Letras) com o ilustrador DW Ribatski.
Julián Fuks nasceu em novembro de 1981, em São Paulo. Filho de pais argentinos, foi repórter da Folha de S. Paulo e resenhista da revista Cult, além de publicar contos em diversas revistas e na antologia Primos: histórias da herança árabe e judaica (Record, 2010). É autor de "Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu" (7Letras, 2004), "Histórias de literatura e cegueira {Borges, João Cabral e Joyce}" (Record, 2007), finalista dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti, eProcura do romance (Record, 2011).
Daniel Galera nasceu em 1979, em São Paulo, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre. É um dos criadores da editora Livros do Mal, pela qual publicou o volume de contos "Dentes guardados" (2001). É autor dos romances "Até o dia em que o cão morreu" (Livros do Mal, 2003), adaptado para o cinema, "Mãos de cavalo" (Companhia das Letras, 2006), publicado também na Itália, na França, em Portugal e na Argentina, e "Cordilheira" (Companhia das Letras, 2008), vencedor do Prêmio Machado de Assis de Romance, da Fundação Biblioteca Nacional. Em conjunto com o desenhista Rafael Coutinho, publicou em 2010 a graphic novel "Cachalote". “Apneia” faz parte de um romance em andamento.
O livro de estreia de Luisa Geisler — Contos de mentira(Record, 2011) — foi escolhido pelo Prêmio SESC de Literatura 2010/2011 na categoria conto. No ano seguinte, o mesmo prêmio escolheu sua novela de estreia — "Quiçá" (Record, 2012) — na categoria romance. Atualmente, ela é colunista da página final da revista Capricho. Luisa nasceu em 1991 em Canoas, RS. Contudo, passa boa parte do seu tempo em Porto Alegre, estudando Ciências Sociais (UFRGS) e Relações Internacionais (ESPM/RS), e escrevendo sentada no chão do metrô.
Vinicius Jatobá nasceu em 1980, no Rio de Janeiro. É mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio e estudou roteiro e direção na New York Film Academy (NYFA). Como crítico literário, colabora com os suplementos “Sabático” (O Estado de S. Paulo), “Prosa & Verso” (O Globo) e na revista Carta Capital. Participou com contos na antologia Prosas Cariocas(Casa da Palavra) e no catálogo de cinema 68 Cinema Utopia Revolução (Caixa Cultural São Paulo). Publicou ficção, crônicas e jornalismo em sites e revistas como EntreLivros, NoMínimo, Rascunho e Terra Magazine, onde foi colunista de livros e de cinema. Escreveu e dirigiu diversos curtas, entre eles "Alta Solidão" (2010) e "Vida entre os mamíferos" (2011). Trabalha em seu primeiro romance, "Pés Descalços", e finaliza a reunião de contos "Apenas o vento", de onde “Natureza--Morta” foi retirado.
Escritor e jornalista, Michel Laub publicou cinco romances, todos pela Companhia das Letras. Entre eles, "Longe da água" (2004), publicado também na Argentina (EDUCC), "O segundo tempo" (2006) e "Diário da queda" (2011), que teve os direitos vendidos para o cinema, recebeu os prêmios Brasília e Bravo/Bradesco e sairá na Alemanha (Klett-Cotta), Espanha (Mondadori), França (Buchet/Chastel) e Inglaterra (Vintage). Nasceu em Porto Alegre, em 1973, e vive atualmente em São Paulo.
Ricardo Lísias nasceu em 1975, em São Paulo. É autor de "Anna O. e outras novelas" (Globo), finalista do Prêmio Jabuti de 2008, "Cobertor de estrelas" (Rocco), traduzido para o espanhol e o galego, "Duas praças" (Globo), terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira de 2006, e "O livro dos mandarins" (Alfaguara), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010, atualmente sendo traduzido para o italiano. Em 2012, publicou o romance "O céu dos suicidas" (Alfaguara). Seus textos já foram publicados também na revista Piauí e nas edições 2 e 6 de Granta em português.
Chico Mattoso nasceu na França, em 1978, mas sempre viveu em São Paulo. Formado em  letras pela USP, foi um dos editores da revista Ácaro e tem textos publicados em diversos jornais e revistas. Longe de Ramiro (Editora 34, 2007), seu primeiro romance, foi finalista do prêmio Jabuti. Em 2011, publicou pela Companhia das Letras seu segundo livro, "Nunca vai embora". Também trabalha como roteirista. Mora atualmente em Chicago, onde estuda escrita dramática na Northwestern University.
Antonio Prata nasceu em 1977, em São Paulo, e tem nove livros publicados, entre eles "Douglas" (Azougue Editorial, 2001), "As pernas da tia Corália" (Objetiva, 2003), "Adulterado" (Moderna, 2009) e, mais recentemente, "Meio intelectual, meio de esquerda" (Editora 34,2010), que reúne crônicas publicadas em jornais e revistas. Mantém uma coluna às quartas no caderno “Cotidiano” do jornal Folha de S.Paulo e escreve para televisão.
Carola Saavedra nasceu no Chile, em 1973, mas aos três anos de idade se mudou para o Brasil. Morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu um mestrado em comunicação. Vive atualmente no Rio de Janeiro. É autora do livro de contos "Do lado de fora" (7Letras, 2005) e dos romances "Toda terça" (2007), "Flores azuis" (2008 — eleito melhor romance pela Associação Paulista de Críticos de Arte) e "Paisagem com dromedário" (2010 —Prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor), publicados pela Companhia das Letras.
Tatiana Salem Levy é escritora, tradutora e doutora em estudos de literatura pela PUC-Rio. É autora do ensaio "A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze" (Civilização Brasileira, 2011) e dos romances "A chave de casa" (Record, 2007) — vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, categoria romance de estreia, e publicado também em Portugal, França, Espanha, Itália, Turquia e Romênia — e "Dois rios" (Record, 2011), que sairá em breve em Portugal e na Itália. Nasceu em Lisboa, em 1979, e vive no Rio de Janeiro.
Leandro Sarmatz vive em São Paulo desde 2001, onde trabalhou nas editoras Abril e Ática, e atualmente trabalha na Companhia das Letras, editando, entre outros autores, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Otto Lara Resende. É poeta, contista, dramaturgo e nasceu em Porto Alegre em 1973. Mestre em Teoria Literária, é autor da peça "Mães & sogras" (IEL, 2000), dos poemas de "Logocausto "(Editora da Casa, 2009) e dos contos reunidos em "Uma fome" (Record, 2010).
Ficcionista nascido em 1984, em Porto Alegre, Antônio Xerxenesky formou-se em letras e é mestre em literatura comparada pela UFRGS. Colabora com resenhas e críticas para diversos jornais e revistas e foi um dos fundadores da Não Editora, em 2007, por onde lançou seu primeiro romance, "Areia nos dentes", em 2008. Seu livro mais recente é a coletânea de contos "A página assombrada por fantasmas", editado pela Rocco em 2011. O texto selecionado faz parte de seu novo romance, "F para Welles".

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Meu tio Roseno, a cavalo


[Meu tio Roseno, a cavalo, de Wilson Bueno. A beleza dessa prosa tão sul, e tão Brasil. Sigo na garupa desse tio, que na garupa do cavalo, vaga por paisagens gaúchas e vive aventura com índios, mortos, circenses, sempre com o pensamento na filha de singular nome dado por uma cigana - Andradazil - que nascerá, e conforme profecia e desejo seu será uma guerreira messiânica. Tio Roseno, que deveria ser "Rosendo", já que muda de nome no livro cada vez que é citado. Os volteios poéticos da prosa de Wilson Bueno flui e soa roseano, e talvez seja a chave para o nome do tio à cavalo, já que "Guimarães" significa justamente cavalo de combate. Andradazil, sua donzela-guerreira, sua Diadorim?

Wilson Bueno, no entanto, não se entrega aos neologismos, seus caminhos são os termos populares, orais, mastigados no sertão de baixo, nos pampas, no entre fronteiras: Paraguay e Argentina. É um livro curto (84 páginas) e eu o leio lento, fruindo a paisagem, as imagens, o pensamento, no ritmo às vezes trote outras de galope, sonoras patas cantantes de Wilson Bueno, eu viajo na garupa do tio Roseno.]

Fragmento

Coaxante, mirim se esfalfa o grulhar da saparia. até o Zaino afina as ventas, arisco, investigando o ar com o focinho, inquietos os cascos esperimentando o andado do chão. Há por perto a lagoa da Gruxuvira, mutante, provisória sempre, alimentada em exclusivo das águas das chuvas, a cada hora e a cada vez. Roseante, o cavaleiro, parece sente do cavalo o sangue fluir. Pelo lado de dentro das coxas, que encostam à barrigueira, chega a lhe adivinhar o suor ainda não vertido, e também seus humores, ao todo do corpo enganchado nele feito a ostra e a entranha. (p. 23).

Recado do nome, de Ana Maria Machado


João Guimarães Rosa, aliás, utiliza diversos anagramas por sua obra afora. Por exemplo: Mauriss Aragão, Sá Araújo Negrim, Romaguari Sães (v. Ave, palavra). E , em Tutameia, esconde-se pelo meio do índice: as iniciais dos títulos dos quatro prefácios formam seu prenome em alemão (Hans), havendo apenas dois contos que fogem à ordem alfabética que regula os títulos, e se colocam em seguida ao da letra J ("João Porém, o Criador de Perus"); "Grande Gedeão" e "Reminisção", justamente suas iniciais, JGR. Assinalando o ponto de ruptura da ordem alfabética, fica um aviso no índice: Hiato: intruge-se JGR lá nas campinas. Ainda a respeito de exploração de seu próprio nome, vale citar trecho de uma carta sua a Curt Meyer-Clason: "O que digo é sincero, nada demagógico, poderia jurá-lo pelo corcel do jagunço Riobaldo, os quais, indissolúveis, vêm a ser um Weihs Mahr ('cavaleiro combatente' ou 'cavalo de combate') - que, conforme vejo num léxico etimológico, e passando por Wimara, Guimara, foi o primitivo nome de Guimarães".


Para quem um dia se aventurar a ler Guimarães Rosa, minha dica é passar antes por esse livro que é um dos estudos mais extraordinários e geniais que podem existir. Digo isso, porque ele explodiu minha cabeça, sobre a grandeza de Rosa, mas também sobre a capacidade de sentidos dessa arte que tanto admiro e que me possibilitou meu ganha pão: a Literatura.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Resenha de Como funciona a ficção, por Flora Sussekind


Flora Süssekind resenha Como funciona a ficção, de James Wood

Há uma dimensão quase farsesca no pragmatismo crítico de James Wood. Se é que se pode chamar de “crítica” uma reaplicação anacronizante e redutora (em geral, sem qualquer crédito) de categorias e perspectivas analíticas alheias como a que move o livro “Como funciona a ficção”. Algo, de fato, soa falso desde a epígrafe auto-irônica, evocando culinária (mas, com nobreza, via Henry James), e a introdução tratando o próprio ensaio de “manual” e “livrinho”. Pois, geminada a esse topos da despretensão, ao didatismo do guia de apreciação literária, que se deseja, em (condescendente) linguagem terra-a-terra, de algum uso para o leitor comum, há uma primeira pessoa fortemente impositiva, e incapaz de autoproblematização, conduzindo tanto a exibição de uma espécie de florilégio do cânone moderno, quanto um elogio pouco velado à própria capacidade de distinguir o “engenhoso” do “realmente interessante” e de resolver “de forma prática” as questões teóricas fundamentais sobre a ficção a que a “teoria literária e a crítica acadêmica”, a seu ver, não teriam chegado a responder “muito bem”.

A crítica universitária e a reflexão teórica não à toa aparecem como antagonistas desde as primeiras páginas de seu manual. Mas antagonistas que funcionam como desconfortáveis pontos cegos de um crítico que procura deslizar com estilizada naturalidade, e sem maiores paradas reflexivas, pelas questões de narrativa e teoria da ficção que mal deixa virem à tona em seu texto. “Quando um estilo se decompõe, se aplaina num gênero”, diz Wood, a certa altura, sobre o realismo comercial. Se haveria o que discutir nas noções woodianas de estilo, realismo e gênero, há algo nessa observação que parece se voltar contra seu autor. Quando a crítica se decompõe, e perde a reflexividade que a define, pode se aplainar em florilégio e manual. Assim como conceitos e questões, descontextualizados, perdem força cognitiva e viram vocabulário vip para leitores cultivados.

É assim que extrai de Erich Auerbach a noção de mescla de estilos e a concepção de mimesis (que não chega, porém, a definir de fato em momento algum) por meio das quais procura definir o realismo moderno; é em Chklovski, e em suas considerações sobre a imagem poética, que (sem dizer) procura ancorar, mas em sentido oposto ao da desfamiliarização, um elogio à metáfora, “pequena explosão de ficção dentro da ficção”, que “cria um estranhamento e logo em seguida faz uma conexão”; as observações sobre ponto de vista presentes em “Como funciona a ficção” apontam, por sua vez, diretamente para Wayne Booth; e é de estudiosos como Ann Banfield, Genette e Roy Pascal, dentre outros, que toma emprestada (mas achatando-a) a discussão sobre o estilo indireto livre, que parece guiar suas considerações sobre aproximação e distância focal entre autor e personagem. Mesmo quando os empréstimos são óbvios, não há qualquer discussão dos estudos modernos e contemporâneos mais relevantes sobre narratologia e ficção. Wolfgang Iser ou Mieke Bal, para ficar em dois exemplos de leitura obrigatória em qualquer universidade, não recebem sequer referência em nota.

Resta apenas a admiração meio vaga por Barthes e Chklovski. E, dado curioso, e certamente não gratuito, não há qualquer menção, por parte de Wood, em todo o livro, a Dorrit Cohn, professora em Harvard, como ele, e uma das mais importantes estudiosas atuais dos modos narrativos de representação da consciência. O silêncio, nesse caso, parecendo se aproximar de certa ironia (igualmente meio velada) com relação a John Updike, que o antecedeu como resenhista literário na revista “The New Yorker”. Pois se a dualidade e os jogos focais entre narrador e personagem são fundamentais à visão woodiana de ficção narrativa, não parece haver lugar para mais de um ponto de vista em sua prática crítica. Ou para maiores flexibilidades e indeterminações na voz didático-autoral que figura para si mesmo no ensaio em que, paradoxalmente, tematiza o estilo indireto livre.

O procedimento-guia de todo o livro é, também, sempre idêntico. Sugerem-se temas interligados — narrativa, olhar, personagem, detalhe, diálogo, empatia, consciência, realismo e assim por diante — e, sem maiores investigações históricas ou conceituais, passa-se a algum tipo de exercício de “close reading” no qual, mais do que iluminar analiticamente os trechos escolhidos, em sua maioria verdadeiros lugares comuns da crítica moderna (Flaubert, Virginia Woolf, Henry James, Kafka, Tolstoi), procura-se ressaltar sobretudo a voz de mestre, a “capacidade de ver e relatar o que vê” do crítico. Uma visão da qual se procura excluir o “projeto literário contemporâneo”, como se refere a ele o crítico. À exceção de um ou outro exemplo já canônico, como Saul Bellow, a cuja obra James Wood tem se dedicado regularmente. O que não deixa de ser curioso, sobretudo num crítico dedicado desde jovem ao jornalismo literário, primeiro nos suplementos ingleses, depois nos EUA, na “The New Republic” e atualmente na “The New Yorker”. Ao lado do impasse teórico-reflexivo, a contemporaneidade parece se apresentar como um segundo ponto cego que poderia forçá-lo a repensar conceitos, procedimentos narrativos, a redefinir o horizonte ficcional com o qual se defronta, embate que certamente desestabilizaria o seu ensaísmo, que, em vez de pautado em naturalidades e certezas-padrão, exporia o seu “leitor comum” a uma desfamiliarização com potencial crítico bem maior do que o oferecido pelo guia recém lançado pela Cosac Naify.


Como funciona a ficção, de James Wood. Tradução de Denise Bottmann. Editora Cosac Naify, 232 páginas. R$ 49.


*FLORA SÜSSEKIND é crítica literária, pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, professora de teoria do teatro da UNI-Rio e autora de “A voz e a série” e “O Brasil não é longe daqui”, entre outros.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

"No horizonte do novo século - Marca da literatura brasileira", artigo de Regina Zilberman.


(...)
4. Inovação e renovação literária
Supõe-se que o único compromisso de um autor de obras literárias, sejam elas de natureza lírica, narrativa ou dramática, seja com sua própria arte. Essa, por sua vez, pode nascer espontaneamente, mas depara-se com alguns horizontes, entre os quais se reconhece a imposição do cânone. Formatado por distintas tradições — a nacional, a internacional, a linguística, a estética —, o cânone aparece na condição de um desafio e, sobretudo, de um enigma, que o artista deve decifrar, sob pena de ser devorado, por não saber fazê-lo ou não ser bem-sucedido.

O cânone, por muito tempo, requereu sua própria reprodução. Distintos classicismos empenharam-se na afirmação de normas e paradigmas a que cabia obedecer e dar seqüência. Os modernismos e as vanguardas inverteram a ordem: o cânone aí está para ser desacatado, rejeitado e desconstruído.
O ímpeto revolucionário das primeiras décadas do século 20 pode ter arrefecido à medida que os decênios se passaram. Não desapareceu, porém, do horizonte do campo literário, induzindo cada artista, de uma parte, a inovar, se comparado com seus contemporâneos e predecessores, de outra, a renovar-se permanentemente, se examinada sua trajetória artística ao longo do tempo. Diante dessa provocação, e sobretudo quando somada ou cotejada aos desafios anteriores, não se pode negar que as novas gerações de escritores brasileiros têm apresentado inovações substanciais, sem deixar de se renovar continuamente.
Cabe mencionar primeiramente autores cujas obras inaugurais datam da década de 1960, como Dalton Trevisan, que, se de uma parte permanece fiel à forma do conto, de outra, investe ininterruptamente em uma narrativa profanadora, cortante e implacável, de que são exemplos os recentes Violetas e pavões e Desgracida, apontando para a fertilidade de seu imaginário de contista.
Foram, porém, os escritores estreantes nos anos 70, do século 20, que acompanharam a nova situação da literatura brasileira, de que os desafios aqui dispostos resultam. Chico Buarque de Holanda publicou seu primeiro romance, Fazenda modelo, em 1974, alegoria de fundo político que desmontava o “milagre brasileiro” propalado pelo regime militar. Seus investimentos literários subseqüentes foram Estorvo, de 1991, e Benjamin, de 1995, propostas, sobretudo a primeira, de linhagem experimental, sendo a cronologia movida pelo fluxo da memória e pelos distúrbios emocionais do protagonista. Dez anos depois, Buarque afina-se ao pendor intertextualista da literatura, publicando o multipremiado Budapeste, de 2004; mas o ficcionista dá novo giro à sua prosa, lançando, em 2009, Leite derramado, romance em que trava um debate com a tradição do romance brasileiro, encarnada em Machado de Assis e Oswald de Andrade. Cristovão Tezza começou a publicar seus primeiros livros nos anos 1980, tendo alcançado a maturidade desejada na primeira década do século 21. Exemplos são tanto O fotógrafo, de 2004, quanto o bem-sucedido O filho eterno, de 2007, romance em que se diluem as fronteiras entre a memória e a fantasia, e entre a história e a ficção.
Milton Hatoum talvez possa representar o melhor exemplo de inovação e impacto nos anos 1990, quando lançou o romance Relato de um certo Oriente, mescla de narrativa memorialista, metaficção historiográfica e discussão das possibilidades de representação do exotismo tropical. Dois irmãos, de 2000, e Cinzas do Norte, de 2005, dão continuidade à carreira exitosa, de repercussão internacional, a que se seguem as publicações recentes do autor: Órfãos do Eldorado, de 2008, e A cidade ilhada, de 2009.
A última década deu vazão a uma plêiade de novos talentos, podendo-se destacar os seguintes nomes, considerados sobretudo aqueles que vêm recebendo prêmios significativos em concursos de repercussão nacional: Bernardo Carvalho, de Nove noites (2002) e Mongólia (2003); Luiz Ruffato, de Eles eram muitos cavalos (2001); Miguel Sanches Neto, de Um amor anarquista (2005) e Chá das cinco com o vampiro (2010); Marcia Tiburi, de Magnólia (2005); Nuno Ramos, artista plástico e escritor, autor de Ó (2008); Maria Esther Maciel, de O livro dos nomes (2008); Amilcar Bettega Barbosa, de Deixe o quarto como está (2002) e Os lados do círculo (2004); Lourenço Mutarelli, de A arte de produzir efeito sem causa (2008); Marcelo Mirisola, de Bangalô (2003) e Animal em extinção (2008); Rodrigo Lacerda, de O mistério do leão rampante (1995), eOutra vida (2009); Michel Laub, de O segundo tempo (2006); Tatiana Salem Levy, de A chave da casa (2007).
Relacionaram-se aqui apenas ficcionistas, e tão somente criadores nascidos entre 1960 e 1980, o que corresponde a uma geração que, em 2010, oscilava entre os trinta e cinqüenta anos de idade. Logo, constituem não apenas a literatura que se faz hoje no país, mas também a que provavelmente continuará ativa nas próximas duas décadas. Ela se depara com outro desafio, o último a se mencionar nesta exposição: dar vazão a uma arte de alcance internacional, sem deixar de se revelar brasileira.
(...)
GAZETA DO POVO. Rascunho. "No horizonte do novo séculoMarca da literatura brasileira" de Regina Zilberman.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Beatriz Bracher sobre Meu Amor



Beatriz Bracher fala no Entrelinhas sobre o livro de contos Meu Amor.

José Rezende Jr.


Contista brilhante, com livros gratuitos para download em sua página oficial.

LINK

Beatriz Bracher - no Entrelinhas

Revistas da USP

Achei link oficial para baixar em formato .pdf duas das melhores revistas de ensaios literários produzidas por renomados críticos da Universidade de São Paulo. As revistas são Magma e Literatura e Sociedade. Material imprescindível para quem quer ter uma carreira consistente no campo dos estudos literários. Infelizmente dois números da Magma se encontram corrompidos e impossibilitados de download, mas o restante está perfeito. Recomendo.

http://dtllc.fflch.usp.br/revista-magma

terça-feira, 17 de abril de 2012

Como lemos na era digital


Como lemos na era digital, de Dwight Garner.
 Folha de S. Paulo. NYT, 9.04.2012

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Fita verde no cabelo, de João Guimarães Rosa


"Fita Verde no Cabelo (Nova velha estória)"
in Ave, palavra, de João Guimarães Rosa. 
Livraria José Olympio Editora. Rio de Janeiro, 1970

Objecto Quase, de José Saramago


Orelha de Objecto Quase, de José Saramago.

Dez anos



De dez em dez anos acontece uma desgraça na minha vida. Uma bomba relógio com precisão terrorista. Sempre perto do meu aniversário, sempre nas datas redondas. A última foi o mês passado, quando fiz cinqüenta anos.
O telefone tocou e eu reconheci na hora.
- Quem está falando? - Luís perguntou sabendo que era eu.
- Com quem quer falar? - respondi sabendo que era ele.
- A Alzira, por favor.
- Não está me reconhecendo?
- Claro que estou, como vai? - assim mesmo, como se nos falássemos a toda hora.
De dez em dez anos Luís me procura.
- Os primeiros cinqüenta já se foram, - ele disse tentando disfarçar a emoção - agora só falta metade.
- Quem merece viver cem anos? - perguntei.
Ele insistiu num encontro. Eu não queria. O que ainda havia para ser dito?

Quando cheguei ao restaurante, ele já estava lá. Os cabelos mais brancos, as costas curvadas, Luís agora usava óculos. O mesmo homem elegante de sempre. Ele me abraçou e disse que eu não mudara nada nos últimos dez anos. Agradeci a gentileza e chamei-o de mentiroso. Sei bem o estrago que o tempo faz numa mulher.
Todo orgulhoso, ele contou do filho, que é médico e mora nos Estados Unidos.
- Fernando está com trinta anos, é cirurgião plástico. - De repente, tomado por uma vergonha repentina, mudou de assunto: - e você, ainda mora sozinha?
- Que jeito.
- Por que não arruma companhia? Sua casa é tão grande.
- Minha solidão preenche a casa inteira. Ela fica até pequena.
Luís deu risada do meu sarcasmo.
- Você precisa de alguma coisa? - quis saber antes de nos despedirmos.
- Eu estou bem, não se preocupe.
Dois dias depois, Fernando me ligou dando a notícia da morte do pai.
- Ele sabia que ia morrer? Estava doente? - talvez por isso tenha insistido tanto no encontro.
- Doença nenhuma. Papai estava forte como um touro.

Quanto tempo ainda viverei sem que o telefone toque e seja ele me dando os parabéns, achando que estou cada vez mais moça?
E eu que pensei que, depois da morte de Marcos, nada mais me abatesse.

Eu tinha quarenta anos quando perdi meu filho. Um caminhão entrou desgovernado no campinho de futebol e atropelou cinco meninos. Marcos foi o único que morreu.

Quando Luís ligou para me cumprimentar pelo aniversário (ele só liga nas datas redondas) ficou sabendo da morte do filho que ele nem chegou a conhecer. Nunca lhe contei quem era o pai. Neste dia, eu me lembro, ele estava muito feliz. Fernando acabara de entrar na faculdade de Medicina.
Quando fiz trinta anos, Luís me procurou e nós nos tornamos amantes. O casamento dele com Maria Amélia não ia bem. "Você é a mulher da minha vida, a única que amei de verdade". Eu sempre soube disso. Nosso caso durou pouco. Terminamos sem que ele soubesse que eu estava grávida.
Aos vinte, quando pensei que ele fosse me pedir em casamento, casou-se com Maria Amélia. "Ela está esperando um filho meu, me perdoa".
Eu tinha dez anos quando Luís mudou-se para a minha rua. [Ivana Arruda Leite]

A escola e o mundo real


A literatura como risco



Luiz Costa Lima

É possível a um relato novelesco tematizar a idiotice contemporânea sem se converter ele mesmo em idiotice? Mantida ao final da leitura do segundo livro de André Sant'Anna, "Sexo" (Sette Letras), a pergunta supõe que saibamos sua resposta: não.

"Sexo" é uma denúncia feroz, mas eficiente, realizada ao nível mesmo da linguagem, da imbecilização róseo-eletrônica com que se encerra o milênio. Mas que se entende por realização ao nível da linguagem? Embora creia sabê-lo, nada me garante que saiba dizê-lo. Começo, pois, pelo título deste artigo. Ao chamá-lo a literatura como risco, afirmo que tratarei de uma experiência literária de extrema ousadia. Devo acrescentar: sua ousadia começa por aparentemente nada dever ao que se reconhece como literário. Uma amostra de seu começo: "As caixas de som, No TETO DO ELEVADOR, emitiam a música de Ray Conniff. O negro, diante da porta pantográfica, fedia. A gorda, que pisava no calcanhar do negro, fedia. O negro fedia a suor. A gorda fedia a perfume Avon.



O ascensorista, de bigode, cochilava. O Executivo de óculos Ray-Ban" etc. O vocabulário é intencionalmente pobre, as frases, intencionalmente lineares, os personagens, rasos, as expressões, semelhantes às das vozes que, cotidiana e televisivamente, martelam nossos ouvidos. Cada história leva a alguma cama.

Lentes gigantescas
Como o leitor não considerará "Sexo" equivalente a um dos tantos pornôs apreciados pelas editoras? Sim, é possível. E não fará mal algum que o engano de leitores aumente sua vendagem: para ser eficaz, a crítica à sociedade de mercado há de passar pelo mercado. Se esse mergulho no inferno é pouco provável para o ensaio e altamente improvável para o ensaio teórico, é passível de suceder na prosa novelesca. A plasticidade da literatura permite que ela assuma usos não literários. Mas como a literatura não se descaracterizaria se, de início, "Sexo" renuncia à identificação literária? Sumariamente, porque a linguagem banalizada é sujeita a lentes que a agigantam.

Essas lentes têm a propriedade de converter o que refinadamente se chama(va) "topoi" em inequívocos clichês. Os clichês acompanham o corte transversal na sociedade. A maneira mais direta de verificá-lo consiste em alinhar os tipos que seriam os personagens. O negro que fede e a loura que fede a perfume barato pertencem a escalões baixos da sociedade, assim como as secretárias louras e bronzeadas estão em escalão intermédio, diferentemente daquele em que se encontra o jovem casal meio hippie, por sua vez não idêntico ao do executivo de óculos Ray-Ban, dos executivos de gravatas com tal ou qual combinação de cores, daquele outro, descontraído, que usa roupas jovens e tem um carro importado. Estes se integram em escalão elevado, mas não tão elevado como o diretor de uma multi ou o negro "pop star", que, "naturalmente", não fede.

Não há novidade em nada disso: em cada escalão, reconhece-se a classificação das agências de publicidade classes C, B, B+, A. Cada um usa clichês, faz piadas, frequenta lugares e aspira parceiros sexuais e "climas" diferenciados. Nossa sociedade é tão visivelmente desigual que não se poderia dizer que há aqui alguma descoberta. Onde pois estaria a lente de aumento e porque os tipos são verdadeiros clones? Por efeito de um duplo dispositivo: quer os tipos tenham ou não tenham nome próprio, seguem sempre um figurino. Os clichês se congelam em padrões. Assim o jovem descontraído não dirigirá seu importado para o mesmo tipo de motel que a loura gorda; e o negro que fede nem sequer pensará em alugar um quarto de motel. Obedecer a um padrão, tanto mais rígido porque não imposto, significa não ter nome.

O nome próprio é um mero cacoete. A identidade é a do segmento social em que cada um está. Claro que, desigual, a sociedade não é imóvel. O negro que não fede, que é um astro pop, que fuma a maconha superior que cultivara em sua própria fazenda, já fora um borracheiro que fedia. Em troca, o adolescente que cultiva gostos não estandardizados apenas se prepara para sua breve integração.

A este dispositivo se agrega um segundo: cada tipo acumula progressivamente novos clichês, que passam a fazer parte de sua designação, de modo que a referência a cada um supõe a repetição da carga acumulada.

O dispositivo vai além da designação dos clones e se expande ao nível das frases ou mesmo dos períodos. Passam assim a haver verdadeiros clones-gêmeos, como os dois jovens executivos, cuja "individualidade" se limita à diferença das cores de suas gravatas listradas, que têm noivas igualmente louras, que preferem os mesmos filmes, que lêem os mesmos artigos da mesma revista etc.

Os clones-gêmeos são induzidos aos mesmos erros, que levam suas noivas a romperem com eles e, finalmente, a se casarem cada uma com o ex-parceiro da outra.

O que chamamos de dois dispositivos não atualiza o que, no vocabulário nobre-clássico, se chamava paródia? Sem dúvida. Só que a paródia é aqui tão gigantescamente ostensiva que o nome se torna impróprio. Precisamos de uma expressão direta para o universo cru. "Sexo" é o pôster sem retoques, cuja ampliação revela os grãos de uma sociedade imbecilizante. Mas a imbecilização por si não é capaz de manter uma sociedade. É preciso que essa tenha um eixo que, imbecilizante, não se confunda com o seu produto. Que eixo, pois, tem a sociedade, cujo microcosmo serve de matéria para "Sexo"?

Seu título já o diz. O que antes se chamaria erotismo se converte em culto, industrialmente estimulado, do pau e da vagina. Essa ossatura é tão una que dela não escapa nem o quarentão de Ray-Ban, nem o psicanalista que, enquanto lê Freud, pensa na jovem vendedora da butique de roupas jovens. Mas um elemento não afina com a ossatura, e a dela é potencialmente desagregadora: os clones dos escalões mais baixos são atraídos pelo sagrado que não está nas cogitações dos demais. A igreja a que aderem os domestica, ensinando-lhes bons modos e não condenando a sexualidade livre entre os fiéis. Assim fazendo, seus "bispos" favorecem a ordem social, não são incomodados e asseguram seu bem-estar. Por que então pensar que tal religioso é potencialmente desagregador?

A afirmação remete à teoria do sagrado que René Girard desenvolvera em "La Violence et le Sacré". Girard tomava como ponto de partida o que chamava o "desejo mimético" -em vez de o desejo ser definido pela atração por um objeto, ele se configuraria em razão da existência de um rival, no desejo. O rival é, ao mesmo tempo, admirado e odiado. Na medida em que esse mecanismo se estende pela sociedade, ela é ameaçada por uma violência indiscriminada. As sociedades arcaicas teriam aprendido a conjurá-la por meio da escolha de uma vítima expiatória, sobre a qual se concentraria toda a violência da sociedade.

O sacrifício da vítima, de sua parte, era justificado em razão de um sagrado, cuja sede de sangue seria aplacada pela imolação da vítima. Em suma, o sacrifício constituiria a "boa violência", aquela que simultaneamente eliminaria a violência indiscriminada e satisfaria o deus que a instilara nas criaturas. Aqui está a questão.

A sociedade contemporânea elege como vítima por excelência o pobre feio e velho. Em vez, contudo, de ser ela uma vítima que condensa e neutraliza a violência indiscriminada, ela assume o caráter de o excluído.

No vocabulário corriqueiro, é um "loser", o perdedor, a que se contrapõe a escala dos vencedores. Por isso mesmo, o "sagrado" contemporâneo interessa apenas aos excluídos. É certo que seus administradores procuram um "re-ligare" que favoreça a ordem social. E esta aceita a nova "religião" enquanto ela desarma os perdedores. De qualquer modo, os vencedores ignoram tal sagrado e adoram apenas o sexo indiscriminado. Em termos de Girard, vivemos o momento avançado da "crise sacrificial", aquele em que a violência indiscriminada ou já explodiu ou está em vias de explodir. Seria esse o germe da fratura contra a sociedade imbecilizante? Ao se ampliar em pôster gigantesco, "Sexo" converte o pornô em denúncia.

Luiz Costa Lima é crítico, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Pontifície Universidade Católica-RJ e autor de “Vida e Mimesis”. Ele escreve mensalmente na seção “Brasil 500 d.C.”




Domingo, 2 de janeiro de 2000. Folha de S. Pauluo Mais! [ +brasil 500 d.C.]


[Resenha do livro Sexo, de André Santana]
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Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Estudando os contistas pós-utopicos ou as novas formas
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