segunda-feira, 16 de abril de 2012

A literatura como risco



Luiz Costa Lima

É possível a um relato novelesco tematizar a idiotice contemporânea sem se converter ele mesmo em idiotice? Mantida ao final da leitura do segundo livro de André Sant'Anna, "Sexo" (Sette Letras), a pergunta supõe que saibamos sua resposta: não.

"Sexo" é uma denúncia feroz, mas eficiente, realizada ao nível mesmo da linguagem, da imbecilização róseo-eletrônica com que se encerra o milênio. Mas que se entende por realização ao nível da linguagem? Embora creia sabê-lo, nada me garante que saiba dizê-lo. Começo, pois, pelo título deste artigo. Ao chamá-lo a literatura como risco, afirmo que tratarei de uma experiência literária de extrema ousadia. Devo acrescentar: sua ousadia começa por aparentemente nada dever ao que se reconhece como literário. Uma amostra de seu começo: "As caixas de som, No TETO DO ELEVADOR, emitiam a música de Ray Conniff. O negro, diante da porta pantográfica, fedia. A gorda, que pisava no calcanhar do negro, fedia. O negro fedia a suor. A gorda fedia a perfume Avon.



O ascensorista, de bigode, cochilava. O Executivo de óculos Ray-Ban" etc. O vocabulário é intencionalmente pobre, as frases, intencionalmente lineares, os personagens, rasos, as expressões, semelhantes às das vozes que, cotidiana e televisivamente, martelam nossos ouvidos. Cada história leva a alguma cama.

Lentes gigantescas
Como o leitor não considerará "Sexo" equivalente a um dos tantos pornôs apreciados pelas editoras? Sim, é possível. E não fará mal algum que o engano de leitores aumente sua vendagem: para ser eficaz, a crítica à sociedade de mercado há de passar pelo mercado. Se esse mergulho no inferno é pouco provável para o ensaio e altamente improvável para o ensaio teórico, é passível de suceder na prosa novelesca. A plasticidade da literatura permite que ela assuma usos não literários. Mas como a literatura não se descaracterizaria se, de início, "Sexo" renuncia à identificação literária? Sumariamente, porque a linguagem banalizada é sujeita a lentes que a agigantam.

Essas lentes têm a propriedade de converter o que refinadamente se chama(va) "topoi" em inequívocos clichês. Os clichês acompanham o corte transversal na sociedade. A maneira mais direta de verificá-lo consiste em alinhar os tipos que seriam os personagens. O negro que fede e a loura que fede a perfume barato pertencem a escalões baixos da sociedade, assim como as secretárias louras e bronzeadas estão em escalão intermédio, diferentemente daquele em que se encontra o jovem casal meio hippie, por sua vez não idêntico ao do executivo de óculos Ray-Ban, dos executivos de gravatas com tal ou qual combinação de cores, daquele outro, descontraído, que usa roupas jovens e tem um carro importado. Estes se integram em escalão elevado, mas não tão elevado como o diretor de uma multi ou o negro "pop star", que, "naturalmente", não fede.

Não há novidade em nada disso: em cada escalão, reconhece-se a classificação das agências de publicidade classes C, B, B+, A. Cada um usa clichês, faz piadas, frequenta lugares e aspira parceiros sexuais e "climas" diferenciados. Nossa sociedade é tão visivelmente desigual que não se poderia dizer que há aqui alguma descoberta. Onde pois estaria a lente de aumento e porque os tipos são verdadeiros clones? Por efeito de um duplo dispositivo: quer os tipos tenham ou não tenham nome próprio, seguem sempre um figurino. Os clichês se congelam em padrões. Assim o jovem descontraído não dirigirá seu importado para o mesmo tipo de motel que a loura gorda; e o negro que fede nem sequer pensará em alugar um quarto de motel. Obedecer a um padrão, tanto mais rígido porque não imposto, significa não ter nome.

O nome próprio é um mero cacoete. A identidade é a do segmento social em que cada um está. Claro que, desigual, a sociedade não é imóvel. O negro que não fede, que é um astro pop, que fuma a maconha superior que cultivara em sua própria fazenda, já fora um borracheiro que fedia. Em troca, o adolescente que cultiva gostos não estandardizados apenas se prepara para sua breve integração.

A este dispositivo se agrega um segundo: cada tipo acumula progressivamente novos clichês, que passam a fazer parte de sua designação, de modo que a referência a cada um supõe a repetição da carga acumulada.

O dispositivo vai além da designação dos clones e se expande ao nível das frases ou mesmo dos períodos. Passam assim a haver verdadeiros clones-gêmeos, como os dois jovens executivos, cuja "individualidade" se limita à diferença das cores de suas gravatas listradas, que têm noivas igualmente louras, que preferem os mesmos filmes, que lêem os mesmos artigos da mesma revista etc.

Os clones-gêmeos são induzidos aos mesmos erros, que levam suas noivas a romperem com eles e, finalmente, a se casarem cada uma com o ex-parceiro da outra.

O que chamamos de dois dispositivos não atualiza o que, no vocabulário nobre-clássico, se chamava paródia? Sem dúvida. Só que a paródia é aqui tão gigantescamente ostensiva que o nome se torna impróprio. Precisamos de uma expressão direta para o universo cru. "Sexo" é o pôster sem retoques, cuja ampliação revela os grãos de uma sociedade imbecilizante. Mas a imbecilização por si não é capaz de manter uma sociedade. É preciso que essa tenha um eixo que, imbecilizante, não se confunda com o seu produto. Que eixo, pois, tem a sociedade, cujo microcosmo serve de matéria para "Sexo"?

Seu título já o diz. O que antes se chamaria erotismo se converte em culto, industrialmente estimulado, do pau e da vagina. Essa ossatura é tão una que dela não escapa nem o quarentão de Ray-Ban, nem o psicanalista que, enquanto lê Freud, pensa na jovem vendedora da butique de roupas jovens. Mas um elemento não afina com a ossatura, e a dela é potencialmente desagregadora: os clones dos escalões mais baixos são atraídos pelo sagrado que não está nas cogitações dos demais. A igreja a que aderem os domestica, ensinando-lhes bons modos e não condenando a sexualidade livre entre os fiéis. Assim fazendo, seus "bispos" favorecem a ordem social, não são incomodados e asseguram seu bem-estar. Por que então pensar que tal religioso é potencialmente desagregador?

A afirmação remete à teoria do sagrado que René Girard desenvolvera em "La Violence et le Sacré". Girard tomava como ponto de partida o que chamava o "desejo mimético" -em vez de o desejo ser definido pela atração por um objeto, ele se configuraria em razão da existência de um rival, no desejo. O rival é, ao mesmo tempo, admirado e odiado. Na medida em que esse mecanismo se estende pela sociedade, ela é ameaçada por uma violência indiscriminada. As sociedades arcaicas teriam aprendido a conjurá-la por meio da escolha de uma vítima expiatória, sobre a qual se concentraria toda a violência da sociedade.

O sacrifício da vítima, de sua parte, era justificado em razão de um sagrado, cuja sede de sangue seria aplacada pela imolação da vítima. Em suma, o sacrifício constituiria a "boa violência", aquela que simultaneamente eliminaria a violência indiscriminada e satisfaria o deus que a instilara nas criaturas. Aqui está a questão.

A sociedade contemporânea elege como vítima por excelência o pobre feio e velho. Em vez, contudo, de ser ela uma vítima que condensa e neutraliza a violência indiscriminada, ela assume o caráter de o excluído.

No vocabulário corriqueiro, é um "loser", o perdedor, a que se contrapõe a escala dos vencedores. Por isso mesmo, o "sagrado" contemporâneo interessa apenas aos excluídos. É certo que seus administradores procuram um "re-ligare" que favoreça a ordem social. E esta aceita a nova "religião" enquanto ela desarma os perdedores. De qualquer modo, os vencedores ignoram tal sagrado e adoram apenas o sexo indiscriminado. Em termos de Girard, vivemos o momento avançado da "crise sacrificial", aquele em que a violência indiscriminada ou já explodiu ou está em vias de explodir. Seria esse o germe da fratura contra a sociedade imbecilizante? Ao se ampliar em pôster gigantesco, "Sexo" converte o pornô em denúncia.

Luiz Costa Lima é crítico, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Pontifície Universidade Católica-RJ e autor de “Vida e Mimesis”. Ele escreve mensalmente na seção “Brasil 500 d.C.”




Domingo, 2 de janeiro de 2000. Folha de S. Pauluo Mais! [ +brasil 500 d.C.]


[Resenha do livro Sexo, de André Santana]

Toda Prosa II, de Márcia Denser




Toda Prosa II, de Márcia Denser. Editora Record. 256 páginas.

Herdeira literária de Oswald de Andrade e Hilda Hilst, a escritora Márcia Denser tornou-se célebre nos anos 1970/80 após o lançamento de Diana Caçadora e Tango Fantasma. Os dois livros lhe renderam os rótulos que hoje ela mesma define como "bobagens": musa dark da literatura e escritora favorita de Paulo Francis. Mas reduzi-la a etiquetas é uma injustiça, afinal, La Denser (como ficou conhecida) é considerada uma das mais importantes escritoras da literatura brasileira contemporânea.

Política subversiva, dramas existenciais e virtualidade nos relacionamentos são alguns dos temas das novelas e contos reunidos na antologia Toda prosa II. Elementos do cotidiano - logradouros ou celebridades, álcool, música, publicidade, a noite, o cinema, grifes, literatura - dão mostra de um escritora ímpar, entre o maldito e o pop mais fustigante, sem deixar de lado o refinamento da tonalidade poética.

No livro, reaparecem dois personagens paradigmáticos de Denser: Diana Marini, seu alter-ego, e Júlia, protagonista de vários de seus contos e também do novo romance Caim, publicado em 2006 pela Editora Record. Mas não só esses, outros tipos povoam as páginas da antologia, "habitantes da noite e da devassidão, não só dos excessos do álcool e do sexo, mas principalmente da alma", como bem explica Cristina Ferreira-Pinto Bailey no posfácio.

Em um texto agridoce, no qual a ironia serve a um olhar sensível e perspicaz, a autora constrói uma ponte muito particular que permite ao leitor ir e voltar entre os anos 70, 80 e 90 - seus costumes característicos, as dores de cada tempo e, marco de todos eles, a fluidez dos seres. Márcia entrega-se, sem medo e com sarcasmo, à tarefa de escarafunchar, de aplicar todo o potencial de seu bisturi, à mão solta, para dissecar nossas fragilidades, nossa incapacidade de manter minimamente o fio da meada, até mesmo quando nos imaginamos seguros?, elogia Bernardo Ajzenberg.


Joca Reiners Terron - uma entrevista


Contos paulistas (sobre Marcia Denser)


Em "Contos paulistas", Wilson Martins fala sobre os contos de Márcia Denser.

Beatriz Bracher


Romancista e autora do livro de contos Meu amor.

Patrícia Melo


Romancista e autora do livro de contos (2012) Escrevendo no Escuro.

Lamartine Babo, nostalgia e desencanto (ensaio)



"Lamartine Babo, nostalgia e desencanto"
Ensaio de Eduardo Araújo Teixeira sobre a peça Lamartine Babo, de Antunes Filho
Publicado na revista de teatro Questão de Crítica.

Escrevi um ensaio sobre a peça LAMARTINE, de Antunes Filho dirigida por Emerson Danesi. Foi publicado numa revista que simplesmente adoro, Questão de Crítica - voltada exclusivamente para teatro. É o segundo texto que publico lá, e já penso no terceiro, sobre Os sete gatinhos. Para ler o ensaio é clicar no link. 


A criança sagrada: estigma, castigo e transcendência




















"A criança sagrada: estigma, castigo e transcendência "
[Leitura do contos "As flores de Novidade", de Mia Couto]

Ensaio analítico descritivo de Eduardo de Araújo Teixeira
Publicado na Revista Navegações, 2011.

Link para o texto integral em PDF.






Geração 90, antologia org. Nelson de Oliveira




Geração 90 - Manuscritos de computador
Antologia org. Nelson de Oliveira

Orelha de João Alexandre Barbosa.



Geração zero zero, org. Nelson de Oliveira






















Capa e orelha de GERAÇÃO ZEROZERO - Fricções em rede.
Org. de nelson de Oliveira
Ed. Língua Geral - Rio de Janeiro, 2011.


Autores

Flávio Viegas Amoreira
Marcelo Benvenutti
João Filho
Whisner Fraga
Andréa del Fuego
Daniel Galera
Marne Lúcio Guedes
Maria Alzira Brum Lemos
Ana Paula Maia
Tony Monti
Lourenço Mutarelli
Santiago Nazarian
José Rezende Jr.
Sidney Rocha
Carola Saavedra
Paulo Sandrini
Walther Moreira Santos
Carlos Henrique Schroeder
Paulo Scott
Veronica Stigger
Lima Trindade

*-*

Fora ficaram outros contemporâneos interessantíssimos segundo Nelson de Oliveira

Clarah Averbuck
João Paulo Cuenca
Márcia Tiburi
Mário Araújo
Tatiana Salem Levy

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A apologia da preguiça e outros quiproquos entre criticos





Rubem Fonseca, Luís Ruffato, Marcelo Mirisola, Lourenço Mutarelli, Clarah Averbuck






Rubem Fonseca, Luís Ruffato, Marcelo Mirisola, Lourenço Mutarelli, Clarah Averbuck

Sobre O anão e a ninfeta, de Dalton Trevisan


Novas rimas entre o patético e o poético, crítica do livro de contos de Dalton Trevisan, O anão e a ninfeta.

Múltiplas faces da literatura brasileira - Sabático




Sobre o filme A pele que habito, de Pedro Almodóvar



Briga dos pos-utópicos por antologias




domingo, 8 de abril de 2012

Sobre Beatriz Bracher,


Meu amor, de Beatriz Bracher.

Sobre Patrícia Melo, e Escrevendo no escuro




Críticas para o livro de contos Escrevendo no escuro, de Patrícia Melo.

Milton Haroum - diversos textos criticos







Sobre Miltom Hatoum e o lançamento do livro de contos A cidade ilhada.

Capitu, adaptação de Dom Casmurro


Capitu traduz para TV modo de narrar de Machado de Assis. Crítica sobre a minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho para Globo.

Crítica do filme Shame, por João Pereira Coutinho




Filmes de Páscoa

Shame' é um dos filmes do ano. Há muito o cinema não mostrava a intransponível solidão de um homem

1. Brandon é um viciado. Não em drogas, não em bebida, nem sequer em pastilhas socialmente aceitáveis. O negócio dele é sexo.

O leitor sorriu com essa possibilidade: sexo é vício que não mata ninguém. E a ciência médica tem dúvidas sobre isso. "Dependência sexual" será uma compulsão patológica ou a melhor forma de aliviar a consciência da mulher traída?

Deixemos de lado essas discussões. Voltemos a Brandon. No início de "Shame", filme de Steve McQueen, ele está deitado sobre uma cama. Tronco despido. Pele branca. Rosto pálido, magro, seco. Lençóis muito azuis.

McQueen, o diretor, é também artista plástico. O plano não é inocente: uma evocação perfeita de um Cristo nas suas mortalhas, como os maneiristas o pintaram repetidamente. Aquele homem está morto. Difícil saber se haverá ressurreição.

Existe uma sequência do filme que exprime esse óbito -e peço desculpa aos leitores por revelá-la aqui (os interessados podem sempre saltar alguns parágrafos): acontece quando Brandon, o supremo predador sexual, não consegue ter relações com uma colega de escritório.

A sequência vale o filme porque é, no duplo sentido da expressão, um "turn off". Os dias de Brandon são o avesso desse fracasso: prostitutas, orgias, encontros casuais em bares -o homem é um garfo insaciável. Tão insaciável que a pornografia e a masturbação servem de aperitivo e sobremesa para os pratos principais.

Só que Brandon falha naquele prato. A razão é tão simples e trágica que qualquer admiração adolescente por ele morre ali, na cama: a moça era a única mulher com quem Brandon tivera uma sombra de envolvimento emocional.

Jantaram antes. Conversaram trivialidades. Beijaram-se, acariciaram-se. E, quando finalmente chegam aos finalmentes, há um olhar trocado entre os dois -um olhar de desejo, sim, mas sobretudo de vulnerabilidade- que acaba com o nosso garanhão.

Ele se afasta, cobre o rosto e sente vergonha, a vergonha de que fala o título. Não a vergonha de ter brochado -Brandon encarrega-se, logo a seguir, de contratar uma profissional para mostrar que ainda é homem.

Mas nós, testemunhas de tudo, sabemos que ele não é. E que a vergonha maior é esta mesma: a vergonha de ser incapaz de estabelecer com qualquer ser humano uma ligação substancial.

Essa incapacidade será amplificada pela irmã de Brandon, que chega a Nova York e instala-se no seu apartamento por uns dias. Sissy é o avesso do irmão: envolve-se muito, sente muito, magoa-se muito.
Brandon não gosta do estilo. Não por se preocupar com a irmã -isso é pedir muito para quem deixou atrofiar a linguagem básica da afeição. Mas porque a irmã devolve-lhe o reflexo da seu incomensurável vazio. "Você me encurrala", grita, na noite em que a expulsa do apartamento. Brandon precisa do seu espaço imaculadamente vazio.

"Shame" é um dos filmes do ano. Porque há muitos anos o cinema não mostrava, de forma tão sem piedade e adulta, a intransponível solidão de um homem.

2. Michael Fassbender, em "Shame", é um prodígio de representação dramática que Hollywood, na sua temporada de prêmios, não foi capaz de suportar. Mas existe um lugar "ex aequo" para Michel Piccoli em "Habemus Papam".

Sou espectador de Piccoli há vários anos e só ele me faria assistir a um filme de Manoel de Oliveira (no caso, "Vou Para Casa", em 2001).

Em "Habemus Papam", Piccoli é o cardeal Melville, eleito papa no conclave, que, na hora de apresentação aos fiéis, é acometido por um pânico paralisante.

Piccoli é magistral nessa combinação de medo, tristeza e doçura infantil. E o filme de Nanni Moretti, contrariamente ao que foi escrito na Europa, não é um ataque à igreja -ou, mais amplamente, ao cristianismo.

Arrisco mesmo dizer que, ao filmar a fragilidade de um homem sobre quem os seus pares (ou o Espírito Santo?) colocaram tão ciclópica tarefa, Moretti realizou uma obra cristã por excelência.
"Pai, por que me abandonaste?", teria suspirado Cristo nos momentos finais da sua agonia na cruz.

Se ao filho de Deus foi permitido um tal momento de fraqueza, por que não a um mero filho de homens?

João Pereira Coutinho 

Jorge Amado



Conto, de André Conti





UM PROTAGONISTA atormentado por demônios pessoais entra num ônibus. Ele descreve para si todos os objetos e cenas que observa, como se estivesse andando de ônibus pela primeira vez. Ao tomar um assento, medita sobre as propriedades do assento e faz, novamente para si mesmo, uma colocação inteligente.
Alguém toma o assento ao lado, e ele medita sobre isso. Aquele conjunto de fatores, os objetos, as cenas, a pessoa ao lado, evoca no protagonista imagens de seus demônios pessoais. Embora os demônios sejam antigos, a reflexão que faz sobre eles no instante seguinte parece nova e perspicaz ao protagonista.
Ele desce do ônibus e descreve o chão pela primeira vez. A partir de agora, quando caminhar, ele não descreverá mais o chão. O protagonista elege alguns elementos da cena para descrevê-los sob uma nova ótica. Fica claro que essa nova ótica é fruto direto dos demônios pessoais do protagonista, que vai enxergar a avenida, os pontos de ônibus e outros objetos corriqueiros a partir deste prisma, o que por sua vez pode indicar que os demônios pessoais, embora antigos, tenham atingido um estágio crítico ou pelo menos passado por alguma mudança em sua configuração.
Há um breu e o protagonista está no café, bebendo café, pensando sobre café, mas na verdade é tudo um desvio de atenção, ele está mesmo é atormentado por seus demônios. As próprias reflexões que faz sobre o café e o gosto do café e sua temperatura e outros aspectos do café indicam isso. Na verdade há outra pessoa conversando com o protagonista, e agora percebemos que ela estava no banheiro durante o episódio do café. A conversa gira em torno dos demônios pessoais do protagonista, e provoca nova reconfiguração em como o protagonista percebe estes demônios. Ele é o centro absoluto do universo, e quando a outra pessoa vai embora, ela deixa de existir.
Há algo de sábio no caminhar lento do protagonista quando ele deixa a mesa, mas não se sabe o que é, tampouco ficará claro. O novo estado de espírito provocado pela conversa também é indefinido, mas o protagonista sente necessidade de descrever mais uma vez para si a avenida, os pontos e um ou outro evento corriqueiro que vão enriquecer a reflexão que ele fará a seguir. De fato, o protagonista consegue coadunar a conversa, a visão que tinha de seus demônios pessoais, a avenida, a pessoa ao lado no ônibus e o café numa reflexão concisa, pertinente e irônica. Ele fica, por um instante, satisfeito, e medita sobre isso.
Um barulho interrompe o estado de espírito do protagonista. Ele vê uma repórter ruiva safadinha, um negão policial de piça descomunal e dois outros policiais sem nenhuma característica digna de nota. O protagonista ainda não sabe, mas esse episódio irá alterar ainda outra vez a maneira como percebe seus demônios pessoais. Naquele momento, porém, ele está ocupado em observar o negão policial da piça grande e a repórter safadinha transando, enquanto os outros policiais assistem. Numa tentativa de tirar sentido do episódio, ele irá invocar as mesmas imagens que usou anteriormente, sem sucesso.
O episódio não será explicado, e o protagonista continuará caminhando sem que saibamos o verdadeiro grau de intimidade entre o negão, a repórter e os policiais, e sem que tomemos conhecimento de outros detalhes práticos, como quantas pessoas estavam observando a cena, se a polícia interveio, se a repórter notou a maneira como o protagonista a observava, se ele saiu logo depois ou se continuou olhando, se virou para trás. Há outro breu, e não sabemos se a interrupção foi de minutos ou de anos, uma vez que o protagonista se pôs novamente a descrever cenas banais do cotidiano como se as visse pela primeira vez.
Chove na avenida, ele pega um ônibus para se proteger e uma série de coisas acontece, todas elas alterando um pouco a maneira como o protagonista encara seus demônios pessoais. Eventualmente ele deixa de existir.


Conto, de André Conti - FSP 28/09/2011 -IMAGINAÇÃO - PROSA, POESIA E TRADUÇÃO

Camões


Marina Colasanti, na perspectiva de Nelly Novaes Coelho



Divinas comédias, de João Pereira Coutinho


O politicamente correto como instrumento de imbecilização do homem.

Laerte, quadrinho de 2012.


She’s leaving home


Papai, Mamãe...

Me desculpem, mas quando lerem esta carta, já estarei voando para longe. Sei que não estou sendo justa com vocês, que vão ficar aí, segurando a barra dos contratos, explicando o meu sumiço para a imprensa... O pessoal vai ficar em cima de vocês. Então, vou tentar explicar esta minha decisão. Espero que a compreendam. Mas o fato é que conheci uma pessoa que tem me ensinado muito. Não se preocupem. Embora “ele” tenha um jeito meio doidinho, meio rebelde, ele não é nenhum maluco drogado, nem um aproveitador. É um cara muito legal, bem-sucedido, famoso no mundo inteiro. Não sei quanto tempo vamos conseguir esconder o romance e esta mudança na minha vida. Só sei que vamos tentar desaparecer por alguns anos, nem que para isso eu tenha que fazer uma plástica. O mais difícil vai ser “ele”. Os jornais sensacionalistas vão fazer de tudo para descobrir onde “ele” está. Como eu disse, ele é uma estrela internacional. Bom... mas o que eu queria dizer é que “ele” me mostrou um outro lado da vida. Só eu sei o quanto vocês, Papai e Mamãe, foram importantes até aqui. Devo a vocês, meus queridos, tudo o que conquistei até hoje, todo o privilégio de poder crescer com responsabilidade, em um ambiente repleto de amor por todos os lados. Isso sem falar nas aulas de música, de dança e tudo o mais que fez de mim uma artista com recursos para exercer o máximo do meu potencial. Nunca vou esquecer dos conselhos que você, Mamãe, me deu a respeito de sexo naquelas nossas conversas de mãe para filha. Agora, finalmente descobri que sexo é uma coisa maravilhosa. E, Papai, também vou me lembrar sempre do quanto você me alertou sobre as drogas, embora hoje eu ache que fumar um baseado de vez em quando não seja tão horrível assim. Tenham a certeza de que jamais vou decepcioná-los. Sei que agora deve estar sendo difícil aceitar tudo isso, mas quando eu voltar (e eu vou voltar), vocês vão ver que a minha decisão foi a mais acertada. Não agüentava mais as fofocas das revistas, ser chamada de brega por todo mundo. Embora eu ainda seja nova em idade, tenho experiência suficiente para decidir sobre a minha carreira, sobre o que devo cantar ou não, que roupas devo vestir e quem devo namorar. E já faz algum tempo que tenho vontade de mudar de estilo, de fazer música de verdade, experimentar um caminho menos comercial, com mais arte. Tenho ouvido coisas diferentes que estão fazendo a minha cabeça e devo tudo isso a “ele”. Já não tenho muito tempo para escrever. Estou aqui em Rondonópolis, o dia está amanhecendo e daqui a pouco o jatinho que “ele” reservou para mim estará no aeroporto aqui perto. Vou colocar esta carta debaixo da porta do quarto do Junior e ele a leva para vocês. Aliás, prestem mais atenção no Junior. Acho que ele também poderia voar mais alto. Ele tem muito talento, gosta mesmo é de tocar bateria e poderia estar numa outra, fazendo outro tipo de música. Infelizmente, vou ter que deixá-lo sozinho, mas eu sei que ele vai se virar bem. Até algum dia.

Beijos, com muito amor,

Sandy

[do livro Inverdades, de André Santana. 7Letras, 2009]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

chico e caetano ao mesmo tempo


Chico e Caetano ao mesmo tempo
A canção morreu? Na linha evolutiva dos dois, ela mostra que apenas vive em outra era
03 de fevereiro de 2012 | 21h 30

Romulo Fróes/ESPECIAL PARA O ESTADO

Muito tem se discutido sobre uma possível crise da canção e da própria música popular brasileira, mas penso ser esta uma avaliação apressada e o erro está na observação do problema. A música brasileira tem se renovado não mais somente pela composição, mas principalmente por meio de uma experiência coletiva nova que se dá através do acesso facilitado à tecnologia de gravação. É pelo som que a música brasileira está se transformando. Através dos trabalhos mais recentes de Chico Buarque e Caetano Veloso, vou tentar identificar traços dessa renovação e o modo como cada um vem lidando com esse problema.

Chico (2011), o mais recente lançamento de Chico Buarque, faz parte de um momento muito importante de sua discografia, em que incluo também As Cidades (1998) e Carioca (2006). Entre a gravação destes dois, ele concede a famosa entrevista a Fernando de Barros e Silva, em que discorre sobre um possível esgotamento histórico da canção. As músicas que compõem estes três álbuns parecem tomadas por este pensamento.

Chico inventa um personagem andarilho que aparece sempre na primeira faixa de cada disco, como se a cada trabalho saísse por aí para topar com as novidades do mundo. "Gostosa, quentinha, tapioca, o pregão abre o dia, hoje tem baile funk, tem samba no Flamengo, reverendo no palanque lendo o apocalipse (...)", os versos de Carioca, canção que abre As Cidades, se desenvolvem sobre uma harmonia fendida que distende a melodia até o limite da nitidez. É difícil cantá-la, pois segue fluida, como que procurando seu prumo. E quando finalmente o encontra, já é tarde demais para compreendermos o seu desenho.

Ao iniciarmos de novo a melodia, não nos lembramos mais dela. Sem rima aparente, a letra conduz o personagem num travelling desorientado pela cidade. Dando liga a pessoas e acontecimentos distintos e sem tentar compreendê-los, vai descrevendo uma cidade e um cotidiano novos em sua música. Subúrbio, faixa que abre o álbum Carioca, avança ainda mais em direção a essa outra cidade, vai ao "avesso da montanha" onde "não tem brisa, não tem verdes-azuis, não tem frescura nem atrevimento". Talvez espere encontrar nesse outro Rio novos caminhos para sua canção. Em Querido Diário, faixa que abre o disco novo, este andarilho adquire uma certa melancolia, não se encontra mais em sua própria cidade, que anda em contramão.

A movimentação que Chico imprime a este personagem movimenta também sua canção. Provoca nela um esgarçamento, em que a melodia é muitas vezes esticada até sua quase desintegração. A ponto de virar fala, mas ainda possível de ser cantada.

Sua obra recente parece encontrar um novo caminho para a sua música, mas encontra nele mesmo o adversário que dificulta sua plena realização. Chico sempre manteve certo distanciamento (admitido por ele em mais de uma entrevista) com a produção de seus discos. Talvez por isso nunca alcançaram a importância de suas canções. Todos conhecem Construção, poucos sabem dizer o nome de outras faixas que pertencem ao disco que leva este título, um dos mais importantes de sua carreira. Essa dualidade entre o compositor e o intérprete permanece nos trabalhos recentes, pois se as canções parecem apontar um novo caminho não só para sua obra, mas para a própria canção brasileira, nos discos elas regridem ao escalonamento um tanto simplista do seu produtor musical.

Luiz Cláudio Ramos, seu arranjador desde 1989, parece orientado por uma correção escolar, querendo consertar os 'defeitos' das composições de Chico, como em Dura na Queda, um dos mais belos e estranhos sambas de todo o seu repertório, escrito para Elza Soares e gravado por Chico em Carioca. Na gravação de Elza, sua linda melodia desliza como a personagem da canção, ‘desfila natural’ sobre uma pulsação cambaleante, com seu tempo forte camuflado. A gravação de Chico 'corrige' essa pulsação, revelando seu tempo forte e pondo a canção literalmente no chão. Os arranjos escritos por Ramos tendem ao fisionômico, enfraquecem as letras, numa tentativa de tradução inocente e anacrônica, como acontece em Querido Diário.

Ao se alcançar o verso "armou tocaia lá na curva do rio", na busca de construir a imagem que a letra sugere, os instrumentos produzem sons que emulam água, pássaros, vento. Às vezes, o título é que determinará sua feição - dessa maneira, As Atrizes, faixa de Carioca, recebe tratamento orquestral típico dos musicais de cinema americano, numa redundância que nada contribui para a canção. Não há enfrentamento ali, um samba é apenas isto, um samba, uma valsa é uma valsa, um choro é um choro. Assim, Tipo um baião, outra faixa de Chico, perde a dubiedade estampada no título, e é finalmente transformada em um baião.

Francisco Bosco escreve em seu artigo O Artista e o Tempo que Chico atingiu o encontro perfeito entre forma e história e que soube manter e desenvolver sua forma, a certa distância formal da história. No mundo de hoje, talvez este distanciamento não seja mais possível em um projeto de renovação. Caetano, por sua vez, sempre ligado ao aqui e agora, quando parece ter simplesmente ignorado o presente, penso que houve um certo desvio em sua trajetória. Eu me refiro ao período de um pouco mais de uma década de colaboração com o músico e maestro Jaques Morelenbaum.

Caetano já disse que Morelenbaum fez com que perdesse muito do medo que tinha da música. Talvez isso explique o movimento em direção a uma produção mais sofisticada, de arranjos orquestrais extremamente formatados e sem espaços para improvisação, negando aquele saudável amadorismo sempre presente em sua obra. Longe dos experimentos tropicalistas de Rogério Duprat, próximo do que fez Dori Caymmi para Domingo (seu disco de estreia ao lado de Gal Costa) e, por que não notar, dos discos de Chico Buarque, ainda que com resultados muito superiores. Não por acaso seu canto se apura nesses trabalhos, parece querer acompanhar o aprimoramento técnico de sua banda. Discos que privilegiam o intérprete em detrimento do compositor se sucedem. Caetano vinha numa evolução que se configurava como um projeto de maturidade, quando esse processo é interrompido.

Cê (2006) e Zii e Zie (2009) trazem à cena um novo protagonista em seu trabalho, o guitarrista Pedro Sá, um dos nomes mais importantes de uma nova geração de artistas ainda pouco comentada. A banda montada por Pedro Sá com outros talentosos músicos desta geração (Marcelo Callado na bateria e Ricardo Dias Gomes no baixo), provocou uma transformação na sua canção. Parece óbvia essa afirmação, pois é claro que o som de um violão, uma guitarra, um violoncelo ou um cavaquinho, cada um com sua característica, muda nossa percepção. Mas não só o som do instrumento tem importância aqui. O modo como ele é captado e a manipulação do seu timbre através dos inúmeros equipamentos de um estúdio de gravação serão tão ou mais importantes. Os músicos dessa geração discutem sobre pedais, amplificadores, microfonação, válvulas, softwares de gravação, instrumentos antigos, etc., tanto quanto propriamente de música.

A canção de Caetano nestes dois discos foi influenciada por este comportamento e é devido exatamente à nossa intimidade com sua obra que notamos mais claramente uma transformação. Se compararmos, por exemplo, com um de seus trabalhos mais celebrados, o álbum Transa, há de se notar diferenças na sua relação com os músicos. Mais do que pelas próprias canções apresentadas, a banda que gravou Transa parecia influenciada pelo comportamento e pela música produzida naquela época - era isso o que a motivava, na busca do som adequado às canções. Com a banda Cê (nome com que batizou sua banda atual), Caetano parece compor para o som que ela produz. Um som de rock, como o de Transa, mas menos desbundado que os anos 1970, mais sombrio, próximo de bandas como Pixies e Sonic Youth e que se mostrou perfeito para a leva de canções carregadas de raiva e frustração apresentadas em Cê.

Em Zii e Zie, 2º disco gravado com essa mesma banda, os sinais de renovação de Caetano ficam mais claros. Em Perdeu, que abre o disco, já é possível notar uma novidade. A canção, rasgada por um riff de guitarra, acompanhada em uníssono pelo baixo e pela bateria, confere à melodia uma rigidez quase mecânica, travando sua evolução, tornando-a menos nítida, quebrada, quase falada - o canto é áspero, diferente daquele a que nos acostumamos. É difícil saber o que diz a letra, as rimas estranhíssimas se desenvolvem fraturadas pelo groove da banda, trazendo um vocabulário inédito à sua lírica, mais erótico do que já foi, quase pornográfico, "(...) colheu, esticou, encolheu, matou, furou, f..., até ficar sem gosto. Ganhou, reganhou, bateu, levou, mamãe, perdeu, perdeu (...)".

O encontro de Caetano com a nova geração de artistas e este novo comportamento em relação à música brasileira, acabou por encontrar e recuperar a carreira de Gal Costa. Gal há muito tempo fora dos estúdios e que havia se transformado numa intérprete burocrática de clássicos da MPB volta a ser a voz ideal para as experimentações de Caetano. Em Recanto (2011), disco mais recente da cantora produzido por ele e Moreno Veloso, Caetano se aprofunda ainda mais no trabalho dentro do estúdio. Apoiado quase totalmente sobre bases eletrônicas, em sua maioria programadas por Kassin (músico e produtor), Caetano compôs canções duras, impenetráveis, de letras um tanto desagradáveis e que modificaram o canto de Gal, tornando-o menos exuberante, de registro mais baixo, com notas graves desconhecidas até então. Tão belo quanto já foi. De uma beleza surgida de elementos comumente não reconhecidos como belo. Do tipo que Caetano sempre perseguiu e que voltou a aparecer em seus trabalhos recentes.

Se a canção vive mesmo uma crise e não tem a mesma relevância na transformação cultural do nosso país, é porque vivemos um tempo diferente, o que envolve questões que vão muito além do modo como nos relacionamos com ela. A pergunta pertinente, agora, é se ainda precisamos de canções. Chico e Caetano seguem ligados por suas diferenças, mas principalmente pela estreita relação que mantêm com a canção brasileira. Chico, acreditando ainda numa renovação através da composição. Caetano, voltando a se alinhar com o presente atrás dessa renovação. Talvez seja justamente pelo comportamento inalterado destes dois grandes artistas que ela ainda demonstre imensa vitalidade. O tempo, afinal, para Chico e Caetano, parece no fundo ser o mesmo.

*ROMULO FRÓES É CANTOR E COMPOSITOR  
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