sexta-feira, 18 de março de 2011

Lista dos cem melhores contos brasileiros, segundo Ítalo Moriconi

 De 1900 aos anos 30
1.        Memórias de ferro, desejos de tarlatana
2.        Pai contra mãe (Machado de Assis) - 19
3.        O bebê de tarlatana rosa (João do Rio) - 28
4.        A nova Califórnia (Lima Barreto) - 34
5.        Dentro da noite (João do Rio) - 43
6.        A caolha (Júlia Lopes de Almeida) - 49
7.        O homem que sabia javanês (Lima Barreto) - 55
8.        Pílades e Orestes (Machado de Assis) - 63
9.        Contrabandista (João Simões Lopes Neto) - 72
10.     Negrinha (Monteiro Lobato) - 78
11.     Galinha cega (João Alphonsus) - 85
12.     Gaetaninho ( Alcântara Machado) - 92
13.     Baleia (Graciliano Ramos) - 95
14.     Uma senhora (Marques Rebelo) - 100

Anos 40 e 50
Modernos, maduros, líricos
15.     Viagem aos seios de Duília (Aníbal Machado) - 107
16.     O peru de Natal (Mário de Andrade) - 125
17.     Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá (Bernardo Elis) - 131
18.     Presépio (Carlos Drummond de Andrade) - 137
19.     O vitral (Osman Lins) - 141
20.     Um cinturão (Graciliano Ramos) - 144
21.     O pirotécnico Zacarias (Murilo Rubião) - 147
22.     Gringuinho (Samuel Rawet) - 153
23.     O afogado (Rubem Braga) - 156
24.     Tangerine-Girl (Rachel de Queiroz) - 159
25.     Nossa amiga (Carlos Drummond de Andrade) - 165
26.     Um braço de mulher (Rubem Braga) - 169
27.     As mãos de meu filho (Erico Verissimo) - 173
28.     A moralista (Dinah Silveira de Queiroz) - 180
29.     Entre irmãos (José J. Veiga) - 186
30.     A partida (Osman Lins) - 190

Anos 60
Conflitos e desenredos
31.     A força humana (Rubem Fonseca) - 195
32.     Amor (Clarice Lispector) - 212
33.     Gato gato gato (Otto Lara Resende) - 220
34.     As cores (Orígenes Lessa) - 224
35.     A máquina extraviada (José J. Veiga) - 229
36.     O moço do saxofone (Lygia Fagundes Telles) - 233
37.     Feliz aniversário (Clarice Lispector) - 239
38.     O homem nu (Fernando Sabino) - 249
39.     O vampiro de Curitiba (Dalton Trevisan) - 252
40.     A mulher do vizinho (Fernando Sabino) - 256
41.     Uma galinha (Clarice Lispector) - 258
42.     Menina (Ivan Angelo) - 261
43.     A caçada (Lygia Fagundes Telles) - 265
44.     O burguês e o crime (Carlos Heitor Cony) - 270
45.     Uma vela para Dario (Dalton Trevisan) - 279

Anos 70
Violência e paixão
46.     Passeio noturno - Parte I e II (Rubem Fonseca) - 283, 285
47.     A morte de D.J. em Paris (Roberto Drummond) - 290
48.     Aí pelas três da tarde (Raduan Nassar) - 310
49.     Felicidade clandestina (Clarice Lispector) - 312
50.     O elo partido (Otto Lara Resende) - 315
51.     A estrutura da bolha de sabão (Lygia Fagundes Telles) - 325
52.     O peixe de ouro (Haroldo Maranhão) - 330
53.     Gestalt (Hilda Hilst) 332
54.     Feliz ano novo (Rubem Fonseca) - 334
55.     Correspondência completa (Ana Cristina Cesar) - 341
56.     Fazendo a barba (Luiz Vilela) - 345
57.     Sem enfeite nenhum (Adélia Prado) - 349
58.     A balada do falso Messias (Moacyr Scliar) - 352
59.     La Suzanita (Eric Nepomuceno) - 358
60.     Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon (José Cândido de Carvalho) - 362
61.     A maior ponte do mundo (Domingos Pellegrini) - 364
62.     Crítica da razão pura (Wander Piroli) - 374
63.     A porca (Tânia Jamardo Faillace) - 379
64.     O arquivo (Victor Giudice) - 382
65.     Guardador (João Antônio) - 385

Anos 80
Roteiros do corpo
66.     O vampiro da Alameda Casabranca (Márcia Denser) - 393
67.     Um discurso sobre o método (Sérgio Santanna) - 402
68.     Alguma coisa urgentemente (João Gilberto Noll) - 416
69.     Idolatria (Sérgio Faraco) - 423
70.     Hell's Angels (Márcia Denser) - 426
71.     Bar(Ivan Angelo)- 434
72.     Aqueles dois (Caio Fernando Abreu) - 439
73.     Intimidade (Edla Van Steen) - 447
74.     I love my husband (Nélida Pifion) - 451
75.     Toda Lana Turner tem seu Johnny Stompanato (Sonia Coutinho) - 457
76.     King Kong x Mona Lisa (Olga Savary) - 464
77.     Flor de cerrado (Maria Amélia Mello) - 466
78.     Obscenidades para uma dona-de-casa (Ignácio de Loyola Brandão) - 471
79.     O santo que não acreditava em Deus (João Ubaldo Ribeiro) - 478
80.     O japonês dos olhos redondos (Zulmira Ribeiro Tavares) - 488
81.     Vadico (Edilberto Coutinho) - 497
82.     Linda, uma história horrível (Caio Fernando Abreu) - 502
83.     Os mínimos carapinas do nada (Autran Dourado) - 510
84.     Conto (nãoconto) (Sérgio Santanna) - 518

Anos 90
Estranhos e intrusos
85.     A Confraria dos Espadas (Rubem Fonseca) - 525
86.     Estranhos (Sérgio Santanna) - 529
87.     Nos olhos do intruso (Rubens Figueiredo) - 540
88.     O anti-Natal de 1951 (Carlos Sussekind) - 544
89.     Olho (Miriam Campello) - 548
90.     Zap (Moacyr Scliar) - 555
91.     Days of wine and roses (Silviano Santiago) - 557
92.     A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtam (Marina Colasanti)
93.     Jardins suspensos (Antonio Carlos Viana) - 571
94.     O misterioso homem-macaco (Valêncio Xavier) - 574
95.     Dois corpos que caem (João Silvério Trevisan) - 579
96.     Conto de verão n2 2: Bandeira Branca (Luis Fernando Verissimo)
97.     Por um pé de feijão (Antônio Torres) - 586
98.     Viver outra vez (Márcio Barbosa) - 588
99.     Estão apenas ensaiando (Bernardo Carvalho) - 592
100.  O importado vermelho de Noé (André Santanna) - 596
101.  15 Cenas de descobrimento de Brasis (Fernando Bonassi) – 604

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século [Italo Moriconi, Editora Objetiva, 2000]

Sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst

in Roteiro do Silêncio (1959)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Uma questão de gosto


Ensaio sobre a canção "Vamos comer Caetano", de Adriana Calcanhotto

http://www.adrianacalcanhotto.com/sec_textos_list.php?id_texto=215

domingo, 13 de março de 2011

Contos de Fernando Bonassi

PAIS E FILHOS

 

- Mãe... Por que tem tanto mosquito?
- Tira a mão daí.
- Se eu tirar vem mosquito, mãe.
- Tira a mão daí já!
- A senhora ainda tá brava com ele?
- Não, acho que não.
- Então por que a gente não tira ele daqui?
- Não sei...
- A gente podia pôr ele no quarto.
- Não. Não quero mais ele lá.
- Mãe... o papai não vai acordar?
- Não, acho que não.
(100 coisas)

094  paisagem com remédios

Na Baixada do Glicério um prédio inacabado foi conquistado por sofás velhos, encerados puídos, cachorros e pessoas vira-latas. Muito perto, o entreposto do Inamps bafeja uma fumaça de  remédios vencidos. Filas e filas de receitas médicas encardidas, empunhadas as orações. Gosmentos de vergonha das suas sujeiras, os engenheiros cobrem o Tamanduateí com placas de concreto. Deixarão correr uma autoestrada moderníssima por cima. Os meninos vão rachar a cabeça nessas pistas lisinhas. Quem viver verá na TV. (São Paulo – Brasil – 1993)

098 rodeio

Ezequiel voou parafusado. Quando estava de boca pro céu, as estrelas e as luzes da arena formaram um telegrama manchado nos seus olhos. Bateu chapado no chão. Ouvido apitando. Deu até vontade de rir...  Mas não é que o touro desceu com uma pisada tão forte que as costelas se esmigalharam por cima do coração?! Foi  menos que suspiro e mais que dolorido. Ele ainda levantou o chapéu e batendo a poeira das calças! Ezequiel, esse insistente... Os  braços valeram pra isso. Mas também só pra isso, porque ao cair de novo já foi de cara... e completamente morto. (Barretos – Brasil – 1996)

003 Turismo ecológico

Os missionários chegaram e cobriram das selvagens o que lhes dava vergonha. Depois as fizeram decorar a ave-maria. Então lhes ensinaram bons modos, a manter a higiene, e lhes arranjaram empregos nos hotéis da floresta, onde se chega de uísque em punho. Haveria uma lógica humanitária exemplar no negócio, não fosse o fato das índias começarem a deitar-se com os hóspedes. Seus maridos, chapados demais, não sentem os cornos. De qualquer maneira, todos levam o seu. Só mesmo esse Deus civilizador é quem  parece ter perdido outra chance. (Cuiabá – Brasil – 1995)

015 índios aprendem depressa

Índios não têm anticorpos ou cabides. Índios não acreditam que o sol vai nascer amanhã, necessariamente. Índios têm tesão na lua e dificuldades pra se matar, porque desconhecem nossa experiência no assunto. Índios pagam o dobro por uma calça Lee. Índios cozinham macacos e jogam a pele fora. Índios ficam fascinados com embalagens. Índios fazem cachaça de qualquer coisa. Índios fazem de tudo na frente uns dos outros e na hora que têm vontade... mas os índios aprendem depressa e, se antes davam suas filhas de presente, agora começam a cobrar por isso. (Cáceres – Brasil – 1987)

 076 êxodo rural

É uma cidadezinha. O comércio funciona na casa das pessoas. Por que abrir loja? Se troca arroz por porco-do-mato, macaco por camisa, uma família de rede por uma canoa de casca... O médico que não entender um pouco dessas ervas que crescem por aí nem precisa parar. Defender criança de enxame de marimbondos é o máximo de ação que os PMs podem encontrar. A gente tem dois. Em turnos de 12 horas. Sábado e domingo, também. Eles não se importam. Moram na rua de trás. É uma cidadezinha. “Zinha” mesmo... tanto que na primeira chance, por pior que seja, a turma se manda. (Sumidouro – Brasil – 1997)

Dez definições:

Verdade é uma opinião mais sensível num instante determinado. Mentira é uma opinião menos necessária por mais tempo. Arte é o que acontece, porém com algumas modificações pra quem não tem paciência de sair de casa e viver a sua própria vida. Diplomacia é uma boca-livre entre dois países críticos, seus smokings, uísques e dúvidas protocolares. Peixes são minerais ativos que rebolam dentro d'água. Moda é um vestido de uma noite. Família é um conjunto de pessoas que não têm dinheiro pra pagar, cada uma, seus malditos aluguéis. Deus é um pai ausente que nunca teve mãe. Mãe é uma gaiola com pé-direito bem grande, cercada de algodão por todos os lados. Vida é isso daqui mesmo, por incrível que pareça...3

Viatura

Armada até os dentes cariados dos ocupantes fardados e cheia de autoridade delegada, cruza a cidade em ruínas a viatura. Nos bairros chiques será vista apressada, trafegando pela esquerda, esnobando os importados mais velozes. Mas não se iludam os comunistas, que a revolução terá no camburão o cassetete que merece. E onde os faróis alcançam, penetrando recônditas periferias, abre as sirenes sobre nós, cidadãos civilizados por carteiras profissionais e salários criminosos (estes sim, nossas piores condenações). Aliás, quase mortos, quase porcos, acabamos no chiqueirinho.

Voz de prisão

Mãos pra cima! Você está preso em nome da lei. Tem todo o direito de ficar quieto. Qualquer coisa que você disser pode ser usada contra você. Tudo o que você disser será usado contra você. Se você não disser nada, seu silêncio será usado contra você. Se você se mover, seu gesto poderá ser interpretado como desacato à autoridade ou agressão. Se você ficar imóvel, sua imobilidade poderá ser interpretada como resistência à prisão. No distrito você poderá usar o telefone pra chamar advogado. Odiamos advogado no distrito que não seja o próprio delegado. O telefone do distrito não funciona.

Canção do exílio

Minha terra tem campos de futebol, onde cadáveres amanhecem emborcados pra atrapalhar os jogos. Tem uma pedrinha cor-de-bile que faz “tuim” na cabeça da gente. Tem também muros de bloco (sem pintura, é claro, que tinta é a maior frescura quando falta mistura) onde pousam cacos de vidro pra espantar malandro. Minha terra tem HK, AR15, M21, 45 e 38 (na minha terra, 32 é uma piada). As sirenes que aqui apitam, apitam de repente e sem hora marcada. Elas não são mais as das fábricas, que fecharam. São mesmo é dos camburões, que vêm fazer aleijados, trazem intranqüilidade e aflição.

Brasil, país do futuro

Um homem de marca-passo a microship usa celular e encomenda cocaína desde o seu 48 válvulas. A seis quilômetros do condomínio fechado, o dispositivo de ondas curtas sob a tampa do motor selado avisa a portaria, que prepara a segurança. Ao chegar, o proprietário é identificado por infravermelho e o primeiro estágio do portão abre-se velozmente. Fecha-se. O cartão magnético introduzido na fenda abre o segundo estágio. O homem entra, acompanhado pelas câmaras do circuito interno de TV até a porta de casa. A encomenda, 80% de pureza, chega 10 minutos depois.
 (São Paulo – Brasil – 1997) (Bonassi 2001: 48)

Escola

Viaturas circulando a meio pau. No mínimo um 32 pra cada 1,2 habitantes passados em revista. Pó, mato & pedra. Grades nas janelas. Cadeados nos portões. Armários arrombados (vazios). Portões de chapas 3mm com recheio de compensado de 15. Um mapa ultrapassado da velha Europa de orelha na parede. Dois Brasis com um só Mato Grosso feitos de papel crepom esmagado. Tabela periódica antes do lítio. Desconfiança é pouco. Cartaz do corpo humano (músculos). Os mais escrotos dizeres e desenhos entalhados nas carteiras, onde garotos e garotas pousam sonolentos (Bonassi 2000: 93).

O juiz

Tenho cargo. Tenho poder. Tenho a lei. Tenho sobrenome. Tenho motorista. Tenho manobrista. Tenho hérnia. Tenho datilógrafas. Tenho descontos. Tenho clientes. Tenho salário. Tenho crédito. Tenho ajuda de custo. Tenho verba de representação. Tenho segurança. Tenho saco pra tudo, desde que cifrado nos autos. Minha toga lavo escondido dos outros, entre  os meus iguais. Tenho o direito. Tenho presentes (não tenho passado). O futuro, ao Supremo pertence. Se me ofendo, meto um processo pra escapar disso tudo. Data vênia: quanto à justiça, favor reclamar com bispo comunista, ou exército golpista.

Definição de máfia

Máfias são compostas por grupos de pessoas, como qualquer família. Máfias são compostas por grupos de pessoas ligadas por interesses financeiros, como qualquer organização bancária. Máfias são compostas por grupos de pessoas ligadas por interesses financeiros, em questões de  vida e morte, como qualquer empresa de seguro-saúde. Máfias são compostas por grupos de pessoas ligadas por interesses financeiros, em questões de vida e morte, nas quais os diversos grupos existentes exercem seu poder por meio de extorsão e violência, como qualquer governo civilizado. 

terça-feira, 1 de março de 2011

Morre Moacyr Scliar (Revista Época)


O escritor gaúcho Moacyr Scliar, de 73 anos, morreu na madrugada deste domingo (27) no Hospital de Clínicas em Porto Alegre, por falência múltipla de órgãos devido às consequências de um acidente vascular cerebral (AVC). Ele sofreu o AVC em 17 janeiro, quando se recuperava de uma cirurgia no intestino.
O velório ocorre nesta domingo, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, a partir das 14 horas. O sepultamento será na segunda-feira, em cerimônia fechada a familiares e amigos.

Biografia de Moacyr Scliar

Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 23 de março de 1937. Filho dos imigrantes judeus José e Sara Scliar, oriundos da Bessarábia (Rússia), Scliar cresceu no bairro Bonfim, tradicional reduto judeu na capital gaúcha. Foi alfabetizado pela mãe, que lhe deu o nome de Moacyr após ler o romance Iracema, de José de Alencar. No final da década de 40, transferiu-se para um colégio católico, onde fez o curso ginasial.
Em 1962, publicou seu primeiro livro, Histórias de um Médico em Formação, um apanhado de contos sobre sua vida de estudante de medicina. Formou-se médico no mesmo ano. Em 1963, começou a trabalhar como médico fazendo parte do Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (SAMDU) de Porto Alegre. Casou-se, em 1965, com Judith Vivien Olivien, com quem teve um filho, Robertto.
O livro de contos O Canavial das Animais, sua segunda publicação, é de 1968. Aliás, Scliar considerava essa obra sua verdadeira estreia no mundo da literatura. Autor de mais de 70 livros e eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2003, Scliar recebeu diversos prêmios ao longo de sua carreira, sendo o último, o Jabuti, por Manual da Paixão Solitária, em 2009. Seus livros estão traduzidos em 12 idiomas. Entre suas obras mais importantes estão O Exército de um Homem Só (1973), O Ciclo das Águas (1975), O Centauro no Jardim (1980) e A Estranha Nação de Rafael Mendes(1983). 

Suas obras trazem temas como a realidade social da classe média brasileira, a medicina e o judaísmo, muitas vezes com um flerte com um imaginário fantástico. 

Além dos livros, Scliar foi colaborador dos jornais Zero Hora e Folha de São Paulo. Teve textos adaptados para a televisão, teatro e cinema. Foi professor visitante da Brown University (Departament of Portuguese and Brazilian Studies) e da à Universidade do Texas.

Em outubro do ano passado, com a eleição de Dilma Rousseff, Scliar escreveu, a pedido de ÉPOCA, qual seria o desafio da nova presidenta:
"O desafio do próximo presidente será transformar o Brasil num país leitor. Isto compreende: 1) completar a erradicação do analfabetismo, inclusive o chamado "analfabetismo funcional", pelo qual a pessoa, mesmo alfabetizada, não consegue ler e compreender um texto; 2) colocar o texto ao alcance da população, seja sob a forma de livros impressos seja sob a forma de livros eletrônicos; 3) reforçar o papel da escola na formação e motivação de leitores; 4) implementar o conceito de "famílias leitoras", da Unesco, através do qual os pais estimulam os filhos a ler."

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Literatura e Cinema


O Cinema foi a grande arte do século XX, e provavelmente se manterá firme neste novo século. Como não poderia deixar de ser, sua influência se fez notar na literatura tanto na poesia quanto na prosa (uma devolução, já que em grande parte - lembremos D. W. Griffith, ela nasce da literatura de Charles Dickens). Para entender essas conexões, bom conhecer bons estudos sobre esta arte e também estudos sobre sua relação com Literatura.

"A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica", de Walter Benjamin.
(Ensaio fácil de ser encontrado online)

Prática do roteiro cinematográfico, de Jean-Claude Carriere e Pascal Bonitzer
Editora JSN, 2a. edição, 1996.

Sobre direção de cinema, de David Mamet
Civilização Brasileira, 2002, RJ.

Num piscar de olhos, de Walter Murch
Jorge Zahar Editor, 2004, RJ. 

Literatura, cinema e televisão, diversos autores
Editora Senac São Paulo/Itaú Cultural, 2003, SP.

[Achei interessante indicar, um ensaio clássico, um focado na criação do texto fílmico (roteiro), um sobre construção de cena sob a perspectiva do diretor, um sobre a questão do corte/montagem/edição (fundamental nesta arte e quase sempre escamoteada/minimizada), e um com vários ensaios críticos de notáveis persquisadores brasileiros (como Ismail Xavier, sempre obrigatório). Não são os MAIS importantes (falta Serguei Eisenstein, p. ex.), mas acho-os relevantes para quem quer um conhecimento mais generalizado mas menos superficial.]


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Judith Butler


Judith Butler

Ronaldo Correia de Brito



Ronaldo Correia de Brito

sábado, 13 de novembro de 2010

domingo, 5 de setembro de 2010

Lista de autores contemporâneos

Ademir Assunção, Aguinaldo Silva, Aldir Blanc, Alice Ruiz, Altair Martins, Amílcar Bettega Barbosa, Ana Paula Maia, Andréa Del Fuego, Antônio Cícero, Antonio Prata, Augusto de Campos, Beatriz Bracher, Bráulio Tavares, Bruno Zeni, Caco Galhardo, Cadão Volpato, Carpinejar, Chacal, Chico César, Clarah Averbuck, Cláudio Willer, Daniel Pellizzari, Décio Pignatari, Evandro Affonso Ferreira, Ferrez, Frederico Barbosa, Gilvan Lemos, Glauco Mattoso, Índigo, Ismael Caneppele, Ivana Arruda Leite, Ivan Marques, Jaguar, Jomard Muniz de Britto, João Anzanello Carrascoza, João Silvério Trevisan, Jorge Furtado, Jorge Mautner, José Castello, José Simão, Laerte, Luiz Roberto Guedes, Marcelo Carneiro da Cunha, Marcelo Montenegro, Marcelo Mirisola, Marcelo Moutinho, Marcelo Rubens Paiva, Márcia Tiburi, Maria José Silveira, Mário Prata, Marcelino Freire, Márcio Souza, Menalton Braff, Micheliny Verunschk, Michel Melamed, Miró, Milton Hatoum, Nei Lopes, Nelson de Oliveira, Nicolas Behr, Paulo Scott, Reinaldo Moraes, Ricardo Aleixo, Ricardo Silvestrin, Ronaldo Bressane, Ronaldo Cagiano, Ronaldo Correia de Brito, Roniwalter Jatobá, Sebastião Nunes, Sérgio Cohn, Sérgio Faraco, Sérgio Vaz (este, responsável por uma das grandes celebrações literárias, o Sarau da Cooperifa, que acontece há nove anos na periferia de São Paulo), Sidney Rocha, Vicente Franz Cecim.


Lista de autores contemporâneos a partir de um post de Marcelino Freire

terça-feira, 23 de março de 2010

Prof. Eduardo, representando Critica Literária no RUMOS Itaú Cultural



[Prof. Eduardo, representando Critica Literária no relançamento RUMOS Itaú Cultural]

Março, 2010.

terça-feira, 2 de março de 2010

Rodrigo Lacerda


Rodrigo Lacerda, autor de O mistério do leão rampante e A dinâmica das larvas.
LINK.

O mistério do leão rampante


Li recentemente O mistério do Leão Rampante, sátira moral situada em Londres, com Shakespeare como "pseudo-vilão". Romance curtíssimo, fraco, mas curioso.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Entrevista de Luiz Ruffato para Revista Z

Em entrevista exclusiva a Heloisa Buarque de Hollanda e Ana Ligia Matos, Luiz Ruffato conta como um filho de pais semi-analfabetos se tornou um dos principais escritores contemporâneos e critica a falta de proletariado nos livros brasileiros.


10/03/2006

Clique no link:
Literatura como projeto

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Fernando Bonassi


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Contos de Amor Rasgados

Marina Colasanti escreve sobre a condição de ser mulher. Em Contos de Amor Rasgados, um aspecto do feminino sempre vem à tona: o poder e a força latente da mulher. O universo feminino é abordado em vários aspectos, como no relacionamento homem e mulher no conto "Até que a palavra fosse possível", e no ambiente doméstico em "A honra passada a limpo". Em seu texto há um tom de denúncia quando explora o paradigma social, perpetuado por gerações, da mulher submissa e domesticada pelo casamento como no trecho “mas sem tarefas domésticas, como preencher de feminina honradez a minha vida?” Sua escrita beira a narrativa fabular e tem passagens de puro surrealismo: “criava uma sereia na banheira”("De água nem tão doce")

Simei Cristina de Andrade de Mendonça

Literatura Brasileira Hoje - Manuel da Costa Pinto

Para quem se interessa por literatura contemporânea, aconselho a leitura do pequeno livro do crítico Manuel da Costa Pinto: Literatura Brasileira Hoje, Coleção Folha Explica.

Encontrei fuçando no google um link para o ebook deste em .doc ou .pdf, para quem deseja consultá-lo, clicar AQUI.




Sérgio Santanna, sobre Amor



"Este livro contém toda a minha minúscula produção literária, excetuando-se Sexo, publicado pelas Edições Cotovia no final de 2000.

Amor é meu primeiro livro. Acho que é um poema. Foi a partir dele que passaram a me considerar escritor, embora até hoje eu não acredite nisso e nem me conforme com isso. Mas o certo é que, ao ser considerado escritor, passei a receber pedidos de textos para algumas revistas, jornais, suplementos literários, etc. E todos os demais contos deste livro foram feitos sob encomenda. Até a publicação de Amor, no final de 1997, eu ainda tentava me tornar um músico razoável. Mas, quando percebi que os Rolling Stones nunca me convidariam para entrar na banda, e que algumas pessoas viam alguma qualidade nos meus textos, tive que me conformar com a literatura."

E literatura é um negócio muito chato de fazer. Tem que ter aquela disciplina insuportável, aquela solidão doentia, aquele diálogo egocêntrico consigo mesmo e mais um monte de angústias desnecessárias ao bem estar humano. Então, decidi escrever como se fizesse música, sem esquentar demais a cabeça, procurando me divertir ao máximo, trabalhando o mínimo. Espero que os leitores consigam tirar algum prazer na leitura desses contos e também possam lê-los como se ouvissem música, pois cada um deles tem melodia, harmonia e ritmo próprios, nos sentidos mais literais das palavras. Pelos menos, tentei.

Nota de Abertura

Mais informações, resenha e entrevista (Revista Rascunho), clique




sábado, 17 de outubro de 2009

De água nem tão doce

Criava uma sereia na banheira. Trabalho, não dava nenhum, só a aquisição de peixes com que se alimentava. Mansa desde pequena, quando colhida em rede de camarão, já estava treinada para o cotidiano da vida entre azulejos.
Cantava melopéias, a princípio. Que aos poucos, por influência do rádio que ele ouvia na sala, foi trocando por músicas de Roberto Carlos. Baixinho, porém, para não incomodar os vizinhos.
Assim se ocupava. E com os cabelos, agora pálido ouro, que trançava e destrançava sem fim. “Sempre achei que sereia era loura”, dissera ele um dia trazendo tinta e água oxigenada. E ela, sem sequer despedir-se dos negros cachos no reflexo da água da banheira, começara a passar o pincel.
Só uma vez, nos anos todos em que viveram juntos, ele a levou até a praia. De carro, as escamas da cauda escondidas debaixo de uma manta, no pescoço a coleira que havia comprado para prevenir um recrudescer do instinto. Baixou um pouco o vidro, que entrasse ar de maresia. Mas ela nem tentou fugir. Ligou o rádio, e ficou olhando as ondas, enquanto flocos de espuma caíam dos seus olhos.

Marina Colasanti





[Inspirado no conto "De água nem tão doce", de "Contos de Amor Rasgados", obra de Marina Colasanti. Criação e interpretação de Laura Virginia.]

NUNCA É TARDE, SEMPRE É TARDE

Conseguiu aprontar-se mas não teve tempo de guardar o material de maquiagem espalhado sobre a penteadeira. Olhou-se no espelho. Nem bonita, nem feia. Secretária. Sou uma secretária, pensou, procurando conscientizar-se. Não devo ser, no trabalho, nem bonita, nem feia. Devo me pintar, vestir-me bem, mas sem exagero. Beleza mesmo é pra fim-de-semana. Nem bonita, nem feia, disse consigo mesma. Concluiu que não havia tempo nem para o café. Cruzou a sala e o hall em disparada, na direção da porta de saída, ao mesmo tempo em que gritava para a mãe envolvida pelos vapores da cozinha, eu como alguma coisa lá mesmo. Sempre tal alguém com alguma bolachinha disponível. Café nunca falta. A mãe reclamou mais uma vez. Você acaba doente, Su. Assim não pode. Assim, não. Su, enlouquecida pela pressa, nada ouviu. Poucas vezes ouvia o que a mãe lhe dizia. Louca de pressa, ia sair, avançou a mão para a maçaneta da porta e assustou-se. A campainha tocou naquele exato momento. Quem haveria de ser àquela hora? A campainha era insistente. Algum dedo nervosos apertava-a sem tréguas. A campainha. Su acordou finalmente com o tilintar vibrante do despertar Westclox e se deu conta de que sequer havia se levantado. Raios. Tudo por fazer. Mesmo que acordasse em tempo, tinha sempre que correr, correr. Tinha tudo cronometrado, desde o levantar-se até o retoque do batom e o perfumezinho final. Exploit da Atkinsons. Perfume quente. Mais ou menos quente. Esqueceu onde havia deixado o relógio de pulso . Perambulou nervosamente pela casa procurando-o. Atrasou alguns preciosos minutos. A mãe achou-o sobre a mesinha do telefone. Su colocou-o no pulso. Viu as horas. Havia conseguido aprontar-se, mas não teve tempo de guardar o material de maquiagem espalhado sobre a penteadeira. Olhou-se no espelho. Nem bonita, nem feia, pensou duas vezes. Vou ficar bonita mesmo só no sábado. Não havia tempo nem para o café. Cruzou em disparada a sala e o hall, em direção à porta de saída, ao mesmo tempo em que gritava para a mãe, bolachinha disponível. Avançou a mão para a fechadura e assustou-se com o toque insistente da campainha. Algum dedo nervoso. O Westclox. Su acordou e deu-se conta mais uma vez da trágica e permanente verdade de que ainda não estava pronta(!) Levantou-se de um ímpeto. Correu ao banheiro, voltou do banheiro, vestiu-se com a roupa estrategicamente deixada sobre a cadeira na noite anterior. Ao sentar-se mais uma vez frente ao espelho, notou que, embora não tivesse ainda se pintado, o material de maquiagem já estava espalhado sobre a penteadeira. O batom aberto e usado, o Exploit desastradamente destampado, evaporando. O despertador tocou novamente. Ou tocou finalmente. E estava com toda corda, pois demorou a silenciar. Mesmo assim, Su andou pela casa toda, tentando desesperadamente acordar-se. Ocorreu afinal a idéia de pedir ajuda à mãe. Esta, envolvida pelos vapores da cozinha, mostrou-se compreensiva. Está bem, Su. Espere só um instantinho que eu vou lá no quarto te acordar.


Silvio Fiorani

Victor Giudice
























(1934-1997)

MICROCONTOS


Bodas de Ouro

Foi só na volta do cemitério, depois de meio século de vida conjugal, que o viúvo percebeu como se cometia um crime perfeito.

(in SALVADOR JANTA NO LAMAS - Editora José Olympio, 1989)

As Três Marias

Com a morte de Socorro, José respirou satisfeito: enfim, poderia casar-se com Prazeres. Com a morte de Prazeres, José respirou satisfeito: enfim, poderia casar-se com Graça. Com a morte de José, Graça respirou satisfeita: José tinha ficado um velho sem graça, sem prazeres, sem socorro.

[Alto da Página]

(in SALVADOR JANTA NO LAMAS - Editora José Olympio, 1989)


Relatividade em nome de Borges

Durante uma das primeiras apresentações da ópera Turandot, ocorreu um fato desconcertante. Quando o povo de Pequim, num coral soberbo, desejou dez mil anos de vida ao Imperador, ele interrompeu o espetáculo e mandou fuzilar todos os componentes do coro: há trezentos e sessenta e quatro dias, o monarca havia completado nove mil, novecentos e noventa e nove anos de idade.

(in O MUSEU DARBOT E OUTROS MISTéRIOS - Leviatã Publicações, 1994)

O Banquete

Foram três mil noites para três mil dores, mas assim que o enterro saiu, ela trancou a porta, assou o robalo e devorou-o entre as liberdades do vinho branco, pois era a melhor maneira de festejar a morte do marido e cicatrizar as feridas.

(in OS BANHEIROS - Editora Codecri, 1979)

O arquivo

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.
Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.
Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.
joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.
Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.
Respirou descompassado.
— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.
joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.
O coração parava.
— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.
A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?
Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.
Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.
Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.
Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.
Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.
O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.
O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.
O chefe não compreendeu:
— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
A emoção impediu qualquer resposta.
joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.
João transformou-se num arquivo de metal.

Victor Giudice


Marina Colasanti

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Miguel e os demônios



       
Miguel e os Demônios é o quinto romance de Lourenço Mutarelli, segundo pela Companhia das Letras, sua nova casa. O autor começou nas HQ's, na década de 90, tendo como principal personagem o detetive Diomedes.


Em 2006 teve seu livro O Cheiro do Ralo adaptado para o cinema, e, para este mesmo formato, escreve agora Miguel e os Demônios, ou As delícias da desgraça. E é sobre a desgraça de um policial que o livro trata: Miguel, homem divorciado, volta a morar com o pai, namora uma manicure pobre e feia, e acaba se apaixonando de maneira fatal por um travesti.


Miguel sofre com as moscas e os remorsos de um "serviço por fora" que teve que cumprir: sumir com quatro jovens delinquentes a pedido dos donos de comércios da região. O assassinato dos garotos corrói a mente do policial, assim como as lembranças de um cadáver em putrefação de um cão que Miguel presenciou ainda quando criança.


Após conhecer o travesti, Miguel abandona a namorada, e passa a conviver com forças ocultas em sua vida, como o aparecimento repentino de uma múmia mexicana, uma possessão demoníaca e um voluptuoso desejo de matar um pedófilo da maneira mais cruel que puder. As forças que agem sobre Miguel são desconhecidas e muito além do seu controle.


Lourenço Mutarelli vem estudando a demonologia há certo tempo. Se em seu livro anterior, A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, a presença das forças malignas somente é sugerida para quem acompanha o drama de Junior, neste livro a cena da possessão do Dr. Carlos, o delegado patrão de Miguel, não deixa dúvida sobre sua intenção de causar choque e arrebatamento no leitor.


O livro foi escrito como um roteiro de cinema. O leitor percebe as demarcações de fotografia e os cortes de cena capítulo a capítulo. Um grande desafio para o diretor e os atores: transformar esta narrativa noir em um longa-metragem digerível para o público, que agrida sua fé e suas convicções sobre a origem do Mal. Mas só um pouco, só o suficiente.
       
Acompanhe o blog do autor, no qual ele fala sobre possessão, seu retorno à bebida, sobre Willian Burroughs & outras leituras: www.lourencomutarelli.blogspot.com/


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Resenha/colaboração de Lucas de Sena Lima:








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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Estive em Lisboa e lembrei de você
























Estive em Lisboa e lembrei de você, de Luiz Ruffato, é o terceiro livro da série Amores Expressos, idealizada por Rodrigo Teixeira em parceria com a editora Companhia das Letras, cuja proposta é contar uma história de amor que tenha como pano de fundo uma das 17 cidades escolhidas pelos coordenadores do projeto. Nesta obra Ruffato opta por uma narrativa em primeira pessoa, como se fosse um diário escrito pelo personagem mineiro Sérgio, que decide deixar casamento e emprego mal-sucedidos para tentar ganhar a vida em Portugal.

Os longos parágrafos e orações revelam, na primeira parte do livro, os planos de sair do Brasil e voltar com dinheiro suficiente para comprar imóveis na pequena cidade de Cataguases (também cidade natal de Ruffato) e viver de renda, matando de inveja a todos os que um dia o maldisseram. Em alguns momentos, o excesso de descrição dos elementos da cidade, como nome de ruas, escolas e moradores torna a leitura enfadonha, principalmente para quem não a conhece. Entretanto, o autor consegue manter um ritmo equilibrado quando mistura relatos passados com o momento presente e prioriza os detalhes da viagem como o processo para tirar passaporte, quanto dinheiro levar, onde se hospedar e conseguir emprego, o que torna o texto mais fidedigno pois são preocupações reais de quem pensa em sair do país.

Ao chegar em Lisboa, Sérgio percebe que nada será tão fácil como imaginou e quem lê o livro pode quase sentir o arrependimento e o sentimento de frustração daquele imigrante na Europa, debaixo das cobertas num quarto de hotel, como narra o autor. Interessante notar que, no decorrer do livro, ocorre uma transformação de linguagem à medida que Sérgio, quando ainda está no Brasil, usa expressões tipicamente mineiras e no período que está em Lisboa sua fala muda aos poucos e passa a utilizar palavras portuguesas como puto (menino), autocarro (ônibus), entre outras, mesmo se tratando de um relato pessoal em que dialoga consigo mesmo.

Ruffato demonstra não estar tão preso à proposta do projeto, pois não aborda de forma clara nenhum relacionamento amoroso ou mesmo faz menções ao amor. Quem está acompanhado a série Amores Expressos, provavelmente ficará na dúvida se o amor é pela esposa louca e pelo filho pequeno que deixa no Brasil, pela cidade de Cataguases, pela prostituta com quem se envolve e a ajuda a ponto de perder seu passaporte ou por si mesmo, enquanto busca melhorar de vida, mesmo que para isso tenha que mudar de país.

Lucas Guedes

http://condussao.blogspot.com/

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sobre Luiz Ruffato









Definição do escritor Luiz Ruffato a partir da leitura do ensaio Diligências num caleidoscópio, de Samanta Simões Braga.


"A linguagem parece ser o meio e o fim da narrativa de Luiz Ruffato, já que o realismo exacerbado de seu texto destaca-se mais pela forma do que pelo conteúdo que nos é apresentado. O autor constrói sua narrativa a partir de fragmentos da vida urbana, os quais, vistos em profundidade, separadamente, e depois em conjunto, viabiliza a compreensão do todo. " [Simei]


"Luiz Ruffato é comparado a um bricoleur, termo emprestado pela crítica ao “escritor que constrói seu texto a partir de fragmentos”. Sua literatura – apresentada no recorte do romance eles eram muito cavalos - caracteriza-se pelo registro não aleatório de imagens (cidade de SP), escolhidas por um olhar não detalhista, mas observador. Dessa forma, o autor consegue reorganizar conceitos da vida moderna reconstruindo seus significados. [Inês Viturino Barbosa]




terça-feira, 6 de outubro de 2009

Jogo de Cena





















































Um filme para nos ajudar a pensar os limites entre o real, o confessional e a ficção. Gênero em suspensão (ou sob suspeita), ruptura do pacto narrativo com quebras brechtianas. Documentário sobre a mulher, o fingimento, a verdade, o encenar, o mentir, o dissimular e o interpretar. Um anti big brother: a atriz no papel da anônima, a atriz exposta em sua carnalidade. Na simulação da dor alheia, a traição do espectador. Enganá-lo como arte de fazê-lo melhor ver. No final, poucas respostas, nenhum desvendamento. Pessoas se encenam, contam-se. "Narrativizamos" nossa história à maneira das telenovelas. O que cabe ao autor contemporâneo: o mergulho num subjetivismo que falseia? A construção de um outro personagem com que mostrar-se?


Eduardo de Araújo Teixeira


domingo, 4 de outubro de 2009

O filho da mãe, de Bernardo Carvalho

























“Não pode haver guerra sem mães”, diz Marina Bóndareva, uma das personagens-chave de “O Filho da Mãe”, o mais recente e comovente romance de Bernardo Carvalho. Marina milita no Comitê das Mães dos Soldados de São Petersburgo, uma organização humanitária, destinada a auxiliar, como diz o nome, mulheres russas em busca de seus filhos – presos, perdidos, desaparecidos ou mortos.

Um romance sobre mães e filhos na Rússia? O tema não causa espanto a quem acompanha a trajetória de Carvalho. O deslocamento territorial é um elemento essencial em sua prosa – uma espécie mesmo de bandeira, acredito, contra a literatura que se orgulha do seu caráter nacional, arraigada a brasileirismos ou regionalismos.

Para continuar lendo, clique AQUI.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

ENTER - ANTOLOGIA DIGITAL
















[Projeto de Heloísa Buarque de Holanda que reúne novíssimos. Projeto excelente, imperdíveis]

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Milton Hatoum















"Por trás de um grande escritor, há sempre uma grande bliblioteca."

Millôr Fernandes [?]



A cidade ilhada, de Milton Hatoum

Comecei e acabei assim, rapidinho, lendo os contos saltados, e anotando às margens com minha lapiseira 0.9. Gostei muito mais do que esperava, na contramão de seus romances. Uma escrita clássica, num ponto e noutro roçando o Gabriel Garcia Marquez dos Doze contos peregrinos, e umas maneiras de Borges, talvez a sobriedade. Manaus unipresente. Estrangeiros lá e aqui, mas sempre a Amazônia, e assim algo de exótico reverberando. Engenhosa habilidade de Hatoum de construir suspense e algum mistério. Num dos grandes contos: o que está em Machado de Assis (mas com desfecho mal resolvido) é bonito modo de Hatoum de arejar nos contos aquela tendência neo-regionalista que há em sua prosa. A fingida memória (familiar, no limite da crônica, mas e as palavras). Com ele, nada de brechtismo: sabe ele bem esconder o verso do bordado. Nele, tudo soa ponderado, mil vezes visto revisto. Literatura calculista? Literatura de fardão? Onde a espontaneidade, a seta certeira? E o tempo presente? (a quem interessar possa?) Todos os velhos críticos sossegados. Hatoum não quer inspirar paixão, é amor de esposa amantíssima, dona-de-casa honrada. Não puxa o tapete. Não foge com o vizinho. E eu ouso dizer que gostei até demais, pois tudo é belo (porque sem sobressalto), tudo amorável até no que lhe falta: aquele quê de transcendência que fazia dos poetas e prosadores mais antigos uma espécie de milagre.



Contos:

Varandas de Eva
Uma estrangeira da nossa rua
Uma carta de Brancroft
Um oriental na vastidão
Dois poetas da província
O adeus do comandante
Manaus, Bombaim, Palo Alto
Dois tempos
A casa ilhada
Bárbara no inverno
A ninfa do teatro Amazonas
A natureza ri da cultura
Encontros na península
Dançarinos na última noite.

A cidade ilhada. Milton Hatoum. Cia das Letras. 2009.

Do rigor na Ciência














Naquele Império, a Arte da Cartografia atingiu uma tal perfeição que o mapa duma só Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia ponto por ponto com ele. Menos Apegadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse extenso Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste subsistem despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Em todo o País não resta outra relíquia das disciplinas geográficas”. [Suárez Miranda: Viagens de Varões Prudentes, livro quarto, cap. XIV, Lérida, 1658. Fragmento selecionado por Jorge Luis Borges, "Do Rigor na Ciência", in "História Universal da Infâmia", tradução Flávio José Cardozo, Porto Alegre, Globo, 1978]

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Entrevista Ivana Arruda Leite


Ivana Arruda Leite

A cidade ilhada, de Milton Hatoum


Vídeo promocional sobre livro de contos de Milton Hatoum, "A cidade ilhada".

A arte de produzir efeito sem causa - Lourenço Mutarelli


Vídeo promocional do livro de Lourenço Mutarelli.

"O Gato Diz Adeus", de Michel Laub


Vídeo pormocional de literatura da Cia das Letras, sobre romance de Michel Laub, O gato diz adeus.

Entrevista de Bernardo Carvalho


Apresentação do livro O filho da mãe, de Bernardo Carvalho (Projeto "Amores Expressos")

Entrevista com Daniel Galera


Encontros de Interrogação - Itaú Cultural

Entrevista com Marçal Aquino


Encontros de Interrogação - Itaú Cultural

Entrevista com Luiz Ruffato


Encontros de Interrogação - Itaú Cultural

ENCERRAMENTO

O curso encerrou, mas o blog continua. Em breve, postagem de alguns trabalhos desenvolvidos no curso e outras participações.

Eduardo Araújo

Entrevista de Cíntia Moscovitch



Vídeo enviado por email e postado por indicação de Silvana S.C.Cardozo
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Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Estudando os contistas pós-utopicos ou as novas formas
da Literatura Brasileira.